Empresários pressionam o Congresso para adiar o fim da escala 6×1, alegando risco de impacto econômico e influência eleitoral. A PEC avança na Câmara, mas enfrenta resistência do setor produtivo, que defende debate mais amplo e votação apenas após 2026.
Representantes da indústria e do comércio intensificaram nesta terça-feira (3) a pressão sobre o Congresso Nacional para adiar a discussão sobre o fim da escala 6×1 — modelo que prevê seis dias de trabalho para um de descanso. O grupo defende que a proposta não seja votada em 2026, ano marcado por eleições, e pede que o tema seja tratado com mais profundidade e fora de um ambiente político polarizado.
A mudança na jornada de trabalho é uma das prioridades do presidente da Câmara, Hugo Motta, que pretende avançar ainda neste semestre com a análise de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o tema.
Pressão do setor produtivo
Durante um encontro com parlamentares, representantes de entidades empresariais afirmaram que a discussão precisa ser mais técnica e menos influenciada pelo calendário eleitoral. O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, defendeu que o debate ocorra com calma e maturidade.
Segundo ele, embora o tema possa começar a ser discutido neste ano, a votação final deveria ocorrer apenas após as eleições. A avaliação é que decisões tomadas sob pressão política podem comprometer a qualidade das políticas públicas.
A vice-presidente da FecomercioSP, Gisela Lopes, foi ainda mais enfática e sugeriu que qualquer mudança na jornada de trabalho seja analisada somente a partir de 2027.
Governo e pauta eleitoral
O debate sobre a redução da jornada de trabalho também ganhou peso político. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido a diminuição da carga horária semanal para 40 horas, sem redução de salários, e deve usar o tema como uma das bandeiras em sua campanha à reeleição.
Para empresários, esse cenário aumenta o risco de decisões com viés eleitoral. Em manifesto que será entregue ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o setor produtivo pede um “diálogo responsável” e alerta para possíveis impactos negativos na economia.
Tramitação da proposta
A PEC que trata do fim da escala 6×1 foi apresentada pela deputada Erika Hilton e já começou a tramitar na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara.
Nessa fase inicial, os deputados analisam apenas a admissibilidade da proposta. Caso avance, o texto seguirá para uma comissão especial e, depois, para votação em plenário, onde precisará de pelo menos 308 votos favoráveis em dois turnos.
Hugo Motta projeta que todas essas etapas possam ser concluídas ainda no primeiro semestre, com possibilidade de votação final já em maio.
Impactos econômicos em debate
Estudos apresentados por representantes do setor produtivo indicam que a redução da jornada pode elevar custos para as empresas. Um levantamento encomendado pela Abrasca aponta que a diminuição para 36 horas semanais, sem corte salarial, poderia aumentar em até 22% o custo da folha de pagamento.
Segundo o estudo, esse cenário poderia gerar efeitos em cadeia, como aumento de preços, redução de empregos e desaceleração do crescimento econômico.
Parlamentares ligados ao setor produtivo também demonstraram preocupação. O deputado Pedro Lupion defendeu um debate mais aprofundado antes de qualquer decisão. Já Arnaldo Jardim alertou que a medida pode encarecer produtos e impactar diretamente o consumidor.
Debate ainda aberto
Apesar das divergências, há consenso entre empresários e parlamentares de que o tema precisa ser discutido. O principal impasse, no entanto, gira em torno do momento e da forma como essa discussão deve ocorrer.
Enquanto o Congresso avança na tramitação, o setor produtivo tenta ganhar tempo e ampliar o debate, defendendo que mudanças estruturais na legislação trabalhista sejam feitas com cautela e base em dados econômicos consistentes.