Um estudo recente desenvolvido pela Universidade Harvard apontou que a adoção acelerada de ferramentas de Inteligência Artificial no ambiente corporativo pode trazer um efeito colateral inesperado: o aumento da carga de trabalho e do risco de esgotamento profissional, conhecido como Síndrome de Burnout.

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Um estudo recente desenvolvido pela Universidade Harvard apontou que a adoção acelerada de ferramentas de Inteligência Artificial no ambiente corporativo pode trazer um efeito colateral inesperado: o aumento da carga de trabalho e do risco de esgotamento profissional, conhecido como Síndrome de Burnout.

A pesquisa acompanhou, durante oito meses, a rotina de uma empresa de tecnologia dos Estados Unidos com cerca de 200 funcionários. O objetivo foi observar, na prática, como a IA generativa tem influenciado os hábitos de trabalho.

O resultado contraria a promessa frequentemente associada à tecnologia. Em vez de reduzir tarefas, as ferramentas digitais tornaram mais fácil produzir mais em menos tempo, levando profissionais a ampliar o ritmo de trabalho, assumir novas funções e estender a jornada.

Segundo os pesquisadores, o aumento da carga de trabalho não ocorreu por pressão direta da liderança. A facilidade em iniciar novas tarefas e gerar resultados mais rápidos levou os próprios funcionários a ampliar o volume de atividades. A conclusão foi baseada em mais de 40 entrevistas aprofundadas, observações presenciais e análise das comunicações internas da empresa.

Burnout não é o mesmo que estafa, explica psiquiatra

Para entender melhor o fenômeno, o BacciNotícias conversou com o psiquiatra Wimer Bottura, especialista pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Segundo ele, muitas pessoas confundem burnout com estafa.

“A estafa é um termo genérico, ligado ao cansaço momentâneo. Já o burnout é um sofrimento contínuo provocado por sobrecarga persistente. A persistência do burnout pode levar à depressão. Muitas vezes existe um caminho que começa na estafa, passa pelo burnout e pode evoluir para um quadro depressivo”, afirma.

Mulheres tendem a relatar mais o problema

De acordo com o psiquiatra, pesquisas costumam indicar maior incidência de burnout entre mulheres, mas os dados precisam ser interpretados com cautela.

“Em tese, o burnout aparece mais no sexo feminino, mas isso ocorre também porque as mulheres costumam manifestar mais o sofrimento. Muitos homens acabam sofrendo em silêncio”, diz.

Segundo ele, esse silêncio pode levar a consequências graves.

“O homem muitas vezes não revela o esgotamento e pode acabar apresentando problemas de saúde mais sérios, como infarto precoce”, explica.

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Outros fatores podem afetar

O especialista afirma que o esgotamento não se limita ao ambiente profissional.

“Hoje temos burnout de mães e pais com filhos pequenos. O excesso de responsabilidades dentro de casa também pode gerar esgotamento”, afirma.

Segundo Bottura, muitas pessoas vivem sob uma pressão constante de obrigações.

“Eu costumo chamar de ‘temqueíte’, a inflamação dos ‘tem que’. A pessoa vive dizendo que tem que fazer isso, tem que fazer aquilo, e acaba entrando em estafa, burnout e até depressão”, explica.

Uso da tecnologia depende de como ela é aplicada

Embora algumas pesquisas indiquem que ferramentas digitais e redes sociais podem acelerar o esgotamento mental, Bottura afirma que o problema não está necessariamente na tecnologia. Segundo ele, o impacto depende da forma como essas ferramentas são utilizadas.

“Em tese, tecnologias como a inteligência artificial foram criadas para facilitar o trabalho das pessoas. A questão não é o que fazemos, mas como fazemos. A inteligência artificial pode simplificar tarefas, mas, dependendo da forma como é usada, também pode acelerar o ritmo de trabalho”, diz.

O especialista afirma que fatores pessoais e profissionais podem contribuir para o burnout. Entre as características pessoais, ele cita como exemplos a dificuldade de impor limites, medo de perder o emprego, ambição excessiva ou compromissos financeiros elevados.

“Existem empresas que exigem mais do que as pessoas conseguem produzir, mas também existem características individuais que aumentam o risco de burnout”, explica. “Pessoas que não conseguem dizer ‘não’ ou assumem responsabilidades maiores do que deveriam acabam se colocando em uma condição de sobrecarga constante”, pontua.

Prevenção envolve mudanças na forma de trabalhar

Segundo Bottura, a prevenção passa por mudanças no modo como as pessoas lidam com trabalho e responsabilidades.

“Se o ambiente é hostil, com chefes que praticam assédio moral ou exigem mais do que o razoável, a pessoa precisa buscar condições para sair dessa situação”, afirma.

Ele destaca que algumas empresas já têm adotado políticas voltadas ao bem-estar dos funcionários.

“Existem organizações chamadas de ‘family friendly’, que reconhecem a importância da família e criam condições para que o trabalhador possa conciliar a vida profissional e pessoal”, explica.

Por fim, o psiquiatra reforça que o risco de burnout está ligado, muitas vezes, à forma como cada pessoa organiza sua rotina.

“Não é apenas o que se faz, mas como se faz. Pessoas muito perfeccionistas, controladoras ou que se cobram demais acabam se colocando em risco maior de burnout”, conclui.

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