O deputado federal Bruno Lima, hoje no Podemos, apareceu publicamente para dizer que apoia a apuração das suspeitas de desvio de recursos no contrato milionário firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil. A declaração, porém, está longe de encerrar o assunto.
Ao contrário: abre uma pergunta incontornável sobre sua responsabilidade política e administrativa. Afinal, Lima comandava a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia justamente quando o contrato foi firmado com a ONG agora investigada por suspeitas de fraude, sobrepreço, descumprimento de metas e possível desvio de dinheiro público para a produção do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
“Se teve algum tipo de desvio para fazer filme, tem que ser apurado mesmo”, afirmou Bruno Lima à GloboNews, segundo reportagem do g1.

A frase soa correta, mas insuficiente. Para um ex-secretário que também é delegado de carreira, não basta defender genericamente a investigação depois que a operação policial já bateu à porta.
O mínimo esperado de quem comandava a pasta era explicar, com clareza, como uma organização sem histórico robusto no setor de telecomunicações acabou envolvida em um contrato dessa dimensão, estimado inicialmente em R$ 108 milhões por ano, para instalar internet gratuita em comunidades da capital paulista.
O caso é grave porque envolve dinheiro público destinado a uma política social sensível: levar internet gratuita a regiões periféricas, onde o acesso digital pode significar estudo, trabalho, serviços públicos e inclusão. Quando um programa com esse propósito aparece no centro de uma investigação sobre possível desvio de recursos para uma produção cinematográfica de interesse político, a população tem o direito de cobrar respostas duras — não apenas da ONG investigada, mas também dos gestores que autorizaram, supervisionaram ou permitiram o avanço do contrato.
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Bruno Lima tenta se afastar do centro do escândalo ao afirmar que não conhece Karina Ferreira da Gama, responsável pelo Instituto Conhecer Brasil e sócia da produtora Go UP, ligada ao filme Dark Horse.
“Não a conheço. Nunca a vi na vida. Se passar na minha frente, não sei quem é”, declarou o parlamentar. A negativa pode até ser verdadeira, mas não resolve o problema. A questão pública não é se houve aperto de mão, encontro privado ou relação pessoal. A questão é administrativa: sob a gestão dele, a secretaria firmou um contrato bilionário em potencial com uma entidade que agora está sob suspeita.
Em uma administração pública minimamente responsável, contratos desse porte exigem diligência, controle, justificativa técnica, análise de capacidade operacional e fiscalização permanente. A defesa de que “toda a parte contratual foi feita pelo corpo técnico da Secretaria” transfere o peso para servidores, mas não elimina a responsabilidade política do secretário. Secretário não é figura decorativa. É o chefe da pasta, responde pela direção administrativa e deve prestar contas quando uma política pública de sua área vira alvo de uma operação policial.
As suspeitas divulgadas pela imprensa ampliam a pressão sobre Lima. Reportagens do g1 e do UOL apontam que o contrato previa a instalação de 5 mil pontos de wi-fi, mas cerca de 3.200 teriam sido instalados até o momento. Também foram citados aditivos que elevaram o valor do contrato para R$ 157,1 milhões e suspeitas de pagamentos por serviços não efetivamente prestados.
‘Consistentes suspeitas de confusão patrimonial’
Ainda de acordo com as informações publicadas, a Polícia Civil apura “consistentes suspeitas de confusão patrimonial” entre o instituto e a produtora do filme. O caso envolve, portanto, duas frentes igualmente graves: de um lado, a possível lesão ao erário; de outro, a hipótese de que recursos destinados à inclusão digital de comunidades pobres tenham sido desviados para financiar uma obra audiovisual de interesse político.
A tentativa de Bruno Lima de se descolar do bolsonarismo também merece leitura crítica. O deputado afirmou que, após o primeiro turno de 2022, teve “a coragem de não apoiar Bolsonaro” e que segue sem apoiar o ex-presidente. Mas o ponto central não é a autodeclaração de distância ideológica.
O ponto central é que a ONG contratada por sua secretaria pertence à mesma empresária ligada à produtora do filme sobre Bolsonaro. A controvérsia não se resolve com uma declaração de neutralidade partidária. Resolve-se com documentos, cronologia, pareceres técnicos, atas, justificativas de contratação, fiscalização de metas, notas fiscais e explicações públicas completas.

Não se trata de condenar Bruno Lima antes do fim das investigações. Trata-se de afirmar que seu discurso defensivo é frágil diante da magnitude do caso. Um deputado federal, delegado de carreira e ex-secretário municipal não pode se limitar a dizer que “apoia a apuração”. Apoiar a apuração é o mínimo. O que a sociedade precisa saber é por que a contratação foi considerada adequada, quais alertas foram ignorados ou enfrentados, quem validou os custos, quem acompanhou a execução e por que as metas não foram integralmente cumpridas dentro do prazo previsto.
A população das periferias de São Paulo não pode ser tratada como figurante de um roteiro político. Se o dinheiro destinado ao wi-fi gratuito foi mal aplicado, superfaturado ou desviado, a apuração deve alcançar todos os elos da cadeia de decisão. Isso inclui a entidade contratada, eventuais empresas subcontratadas, agentes políticos, gestores públicos e qualquer autoridade que tenha participado da formulação, assinatura, fiscalização ou aditamento do contrato.
Bruno Lima tem o direito de se defender. Mas a sociedade tem o direito de desconfiar de explicações genéricas. Quando um contrato público dessa dimensão, firmado sob sua gestão, vira alvo de uma operação policial e de suspeitas de desvio milionário, a postura esperada não é apenas surpresa. É prestação de contas detalhada. Até lá, sua tentativa de se apresentar como mero espectador de um contrato assinado sob sua própria secretaria soa menos como esclarecimento e mais como fuga da responsabilidade política.
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