Esqueça a ideia de praias de areia branca e coqueiros. A alguns quilômetros do litoral de São Paulo, entre Peruíbe e Itanhaém, existe um pedaço de paraíso tropical que é oficialmente proibido para visitação humana. Conhecida popularmente como Ilha das Cobras ou Ilha da Queimada Grande, este laboratório natural brasileiro guarda o que é considerado o animal mais perigoso e ameaçado do país: uma serpente cujo veneno é capaz de matar uma ave antes mesmo que ela caia do galho.
Esqueça a ideia de praias de areia branca e coqueiros. A alguns quilômetros do litoral de São Paulo, entre Peruíbe e Itanhaém, existe um pedaço de paraíso tropical que é oficialmente proibido para visitação humana. Conhecida popularmente como Ilha das Cobras ou Ilha da Queimada Grande, este laboratório natural brasileiro guarda o que é considerado o animal mais perigoso e ameaçado do país: uma serpente cujo veneno é capaz de matar uma ave antes mesmo que ela caia do galho.

Local é abrigo de cobras mais venenosas do mundo
O local não é uma unidade militar, mas sim uma Área de Relevante Interesse Ecológico, gerenciada pelo ICMBio, e o motivo do veto a turistas é simples: a ilha abriga uma das maiores densidades de serpentes do mundo, com cerca de 45 indivíduos por hectare, o equivalente a encontrar quase 50 cobras em uma área do tamanho de um campo de futebol.
Arma biológica
A estrela da ilha é a Jararaca-Ilhoa (Bothrops insularis), uma espécie endêmica, o que significa que ela não existe em nenhum outro lugar do planeta. Isolada geograficamente por milhares de anos, a serpente desenvolveu um mecanismo de sobrevivência brutal para se adaptar à ilha, onde não havia roedores terrestres para caçar, apenas aves migratórias.
Para garantir que a presa não fugisse voando após o bote, a Jararaca-Ilhoa evoluiu e seu veneno se tornou cinco vezes mais potente que o de sua prima continental, a jararaca-comum. O resultado é um veneno tão letal que a morte é quase instantânea. Devido a essa adaptação, a cobra se tornou de hábito diurno para coincidir com a atividade das aves, usando sua coloração esverdeada e amarelada para se camuflar perfeitamente na vegetação espinhosa. Apesar de ser mortal, ela está classificada como criticamente ameaçada de extinção, tendo a biopirataria (o tráfico de animais) como uma das suas principais ameaças.

Apenas cientistas podem entrar
O acesso à Ilha da Queimada Grande é restrito e considerado extremamente perigoso, sendo permitido apenas para cientistas do Instituto Butantan e de universidades, que a veem como um laboratório natural inigualável para estudos sobre evolução e conservação. Os pesquisadores, que usam vestimentas e equipamentos especiais, precisam de autorização prévia e detalhada (SISBio) do ICMBio.
A experiência, no entanto, é assustadora. Quem já visitou, afirma a presença de muitas serpentes. A partir do momento em que as pessoas começam a subir na mata, dezenas de cobras são avistadas. O caminho dos pesquisadores é aberto por um especialista que vai, literalmente, afastando as cobras do chão com ganchos para que o grupo possa passar.

Apesar do risco mortal em terra, o mar ao redor da ilha é considerado um dos melhores pontos de mergulho do estado de São Paulo, sendo rota de tartarugas, raias e até baleias. Como a Jararaca-Ilhoa é estritamente terrestre e não entra na água, o mergulho na costa é liberado, oferecendo um contraste paradisíaco e seguro em relação ao terror que se esconde a poucos metros, na mata. O estudo do veneno dessa espécie endêmica é crucial, pois o veneno de sua parente continental, a jararaca-comum, foi fundamental para o desenvolvimento do Captopril, um dos medicamentos mais usados para o controle da pressão arterial.
Leia mais:
