Indiciado por sete crimes, entre eles feminicídio e ocultação de cadáver, o publicitário Ricardo Jardim negou ter matado a namorada Brasília Costa (65) ao depor e disse ter encontrado a mulher já morta; ele admitiu, porém, ter pago um catador para acondicionar o corpo em uma mala e relatou que planejou dispersar partes pela cidade — o torso foi achado na rodoviária de Porto Alegre e a polícia segue em busca do crânio; o Ministério Público agora avaliará se denuncia o suspeito, cuja pena somada pode chegar a quase 100 anos se condenado.
O publicitário Ricardo Jardim, de 66 anos, indiciado pela Polícia Civil por sete crimes, entre eles feminicídio, ocultação de cadáver e falsificação de documentos, prestou depoimento em que negou ter matado Brasília Costa, de 65 anos, e fez revelações sobre os atos que tiveram sequência após encontrar o corpo da mulher em agosto. Jardim está preso preventivamente desde setembro, quando as investigações avançaram após o achado de um torso dentro de uma mala num armário da rodoviária de Porto Alegre.
As conclusões do inquérito foram apresentadas nesta sexta-feira (31) pelo diretor do Departamento de Homicídios, delegado Mário Souza, que afirmou que, apesar de o inquérito ter sido encerrado, a polícia continuará procurando o crânio da vítima. Segundo Souza, a pena somada pelos crimes pode chegar a quase 100 anos em caso de condenação. A investigação apurou que partes do corpo foram descartadas em locais diferentes da cidade: o primeiro descarte ocorreu em 13 de agosto, em área erma da Zona Leste; o segundo, em 20 de agosto, na rodoviária, um local de grande circulação e com monitoramento por câmeras. As pernas foram encontradas em dois pontos distintos da Zona Sul.
O caso veio à tona em agosto, quando o torso foi achado dentro de uma mala deixada em um armário na rodoviária. Imagens de câmeras de segurança ajudaram a identificar o suspeito: em um dos vídeos, o homem aparece abaixando a máscara que usava, imagem que levou à identificação de Jardim. A polícia busca agora o crânio de Brasília; o delegado ressaltou, porém, que a ausência dessa parte do corpo não impede o prosseguimento do caso criminal.
Em depoimento à repórter Adriana Irion, de Zero Hora, Jardim afirmou que não matou a companheira. Segundo ele, no dia em que foi ao apartamento de Brasília para comemorar um ano de relacionamento, encontrou a mulher “deitada na cama com o braço caído”, já sem sinais vitais. Relatou que tentou checar pulso e respiração e que, diante da constatação de óbito, deixou o corpo coberto e voltou ao seu próprio quarto.
Em trecho do depoimento reproduzido, Jardim disse: “Ela estava imóvel, eu sacudi, chamei por ela e ela não respondeu nada. Aí eu fiz todo aquele procedimento que a gente faz: olha pulso, olha aqui, ouve, tenta ouvir a respiração, coração… Por último peguei o aparelhinho, botei no pulso dela”.
Ainda no depoimento, o publicitário admitiu ter pago R$ 2 mil a um catador conhecido como “Binho” para ajudá-lo com o corpo. Segundo Jardim, ele pediu que Binho colocasse o corpo numa mala e “cortasse um pedaço da perna, uma coisa assim, para caber numa mala”, mas negou ter ordenado o esquartejamento ou a retirada da cabeça.
Em outras passagens, o suspeito admitiu temor de ser preso “eu tinha medo de ser preso. Tinha certeza que ia ser preso” e disse que planejou distribuir partes do corpo em vários pontos da cidade para dificultar a investigação. Sobre a escolha da rodoviária como local de descarte, afirmou: “Pensei na rodoviária… achava ela mau iluminada, complexa. Aí resolvi deixar, ‘vamos ver o que acontece, pelo menos vão encontrar um corpo, vai dar para enterrar’”.
A Defensoria Pública do Estado emitiu nota alertando que o indiciamento não vincula o Ministério Público nem equivale a acusação formal, e considerou precipitado discutir o teor do indiciamento enquanto a causa da morte ainda não foi esclarecida. O Ministério Público agora analisará o inquérito e decidirá se oferece denúncia; caso ofereça e o Judiciário aceite, terá início a fase de acusação formal e posterior processo penal.
A lista de crimes apontados no inquérito inclui: feminicídio, ocultação de cadáver, falsificação de documento público, uso de documento falso, falsa identidade, invasão de dispositivo informático e furto mediante fraude. Enquanto o caso segue sob responsabilidade do MP e da Justiça, a polícia mantém as buscas pelo crânio de Brasília e deve produzir atos complementares para localizar possíveis cúmplices e esclarecer com precisão a dinâmica da morte.
A gravidade do episódio, a repercussão das imagens que ligaram Jardim ao local onde a mala foi deixada e as declarações do próprio suspeito sobre pagamento a terceiros e intenção de dispersar partes do corpo transformaram o caso em um dos mais comentados na capital gaúcha — ao mesmo tempo em que suscitam debates sobre violência contra mulheres, presunção de inocência e os limites da apuração criminal.
