O planeta entrou em uma fase crítica de uso insustentável da água doce, descrita por pesquisadores como um cenário de “falência hídrica”.

Volume de água no Sistema Cantareira atinge nível crítico e acende alerta para possíveis restrições no abastecimento de São Paulo ao longo de 2026. Foto: Agência SP.
Volume de água no Sistema Cantareira atinge nível crítico e acende alerta para possíveis restrições no abastecimento de São Paulo ao longo de 2026. Foto: Agência SP.

O planeta entrou em uma fase crítica de uso insustentável da água doce, descrita por pesquisadores como um cenário de “falência hídrica”. O alerta consta em estudos ligados à Organização das Nações Unidas (ONU) e aponta que diversas regiões já não conseguem se recuperar da escassez frequente de água, agravada pelas mudanças climáticas e pelo consumo acima da capacidade natural de reposição.

Atualmente, cerca de 4 bilhões de pessoas, o equivalente a quase metade da população mundial, enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano. Em muitas áreas, os impactos já são visíveis, com reservatórios esvaziados, colheitas comprometidas, racionamentos, afundamento do solo e aumento de incêndios florestais, além de tempestades de poeira mais frequentes.

Escassez deixou de ser pontual e passou a ser estrutural

Os sinais da chamada falência hídrica se espalham por diferentes continentes. Em Teerã, capital do Irã, o uso excessivo e as secas sucessivas reduziram drasticamente os reservatórios que abastecem a cidade, alimentando tensões políticas. Nos Estados Unidos, a demanda por água já supera a capacidade do rio Colorado, fonte essencial para abastecimento humano e irrigação em sete estados.

Segundo os pesquisadores, a falência hídrica não se resume à falta temporária de água. Trata-se de uma condição crônica que surge quando a retirada supera, de forma contínua, a capacidade de reposição natural, enquanto os sistemas que armazenam e filtram a água, como aquíferos e zonas úmidas, sofrem danos difíceis de reverter.

Um estudo conduzido pelo Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde concluiu que o mundo ultrapassou a fase das crises hídricas ocasionais. Em diversas regiões, os sistemas de água já não conseguem retornar às condições naturais históricas.

Afundamento do solo e perda de aquíferos preocupam especialistas

Entre os efeitos menos percebidos pela população está a subsidência, o afundamento gradual do solo causado pela extração excessiva de água subterrânea. Quando os aquíferos são explorados além do limite, a estrutura que sustenta o solo se compacta de forma irreversível.

Na Cidade do México, por exemplo, o solo afunda cerca de 25 centímetros por ano. Fenômeno semelhante ocorre em grandes centros urbanos da Ásia, como Jacarta, Bangkok e Ho Chi Minh. O relatório Global Water Bankruptcy, divulgado em 20 de janeiro de 2026, aponta que mais de 6 milhões de quilômetros quadrados do planeta já apresentam afundamento significativo, afetando áreas onde vivem aproximadamente 2 bilhões de pessoas.

Agricultura concentra maior parte do consumo de água

A agricultura responde por cerca de 70% de toda a água doce utilizada no mundo. Em regiões onde a disponibilidade hídrica diminui, a produção agrícola se torna mais cara e instável, gerando desemprego, tensões sociais e riscos à segurança alimentar.

Estudos indicam que cerca de 3 bilhões de pessoas vivem em áreas onde a capacidade de armazenamento de água está em declínio. Mais de 1,7 milhão de quilômetros quadrados de terras agrícolas irrigadas enfrentam estresse hídrico alto ou muito alto, o que ameaça mais da metade da produção global de alimentos.

As secas também se tornaram mais longas e intensas. Entre 2022 e 2023, mais de 1,8 bilhão de pessoas enfrentaram algum nível de seca em diferentes partes do mundo, cenário associado à elevação das temperaturas globais.

Perda de zonas úmidas agrava a crise

Além da redução das chuvas em várias regiões, o planeta perdeu mais de 4,1 milhões de quilômetros quadrados de zonas úmidas naturais ao longo das últimas cinco décadas. Esses ambientes são fundamentais para armazenar água, reduzir inundações, melhorar a qualidade hídrica e manter ecossistemas.

A degradação ambiental, somada à poluição, à intrusão de água salgada e à salinização do solo, tem tornado muitas fontes impróprias para consumo humano e uso agrícola.

Mesmo diante desse cenário, países continuam ampliando a retirada de água para sustentar a expansão urbana, agrícola, industrial e, mais recentemente, de centros de processamento de dados voltados à inteligência artificial.

Especialistas defendem mudança urgente de gestão

Pesquisadores afirmam que a resposta à falência hídrica exige uma mudança profunda na forma como a água é gerida. Entre as medidas apontadas estão o estabelecimento de limites reais de uso, a proteção de zonas úmidas e aquíferos, a redução do consumo com critérios de justiça social e o investimento em monitoramento por satélite para acompanhar o estado dos recursos hídricos.

A recomendação final é clara: cidades, sistemas alimentares e economias precisam ser redesenhados para funcionar dentro dos limites naturais disponíveis. Caso contrário, a pressão sobre os recursos hídricos tende a aumentar, elevando o risco de conflitos, insegurança alimentar e crises humanitárias.

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