A Colômbia autorizou uma candidatura inédita nas eleições legislativas: uma inteligência artificial chamada Gaitana. Embora a lei não permita que uma IA ocupe formalmente um cargo eletivo, o Conselho Nacional Eleitoral validou um modelo em que representantes humanos repetirão, no Congresso, as decisões de consenso geradas pela plataforma digital. O projeto tem apoio de comunidades indígenas e afrodescendentes e já reúne mais de 10 mil participantes.
A Colômbia autorizou uma candidatura representada por inteligência artificial nas eleições legislativas, em um modelo inédito no país. A plataforma comunitária Gaitana recebeu aval para concorrer simultaneamente ao Senado e à Câmara de Representantes, pela Circunscrição Especial Indígena, com decisões políticas baseadas em consenso digital.
Como a legislação colombiana não permite o registro formal de uma IA como candidata, o Conselho Nacional Eleitoral autorizou que dois representantes humanos ocupem os assentos, caso eleitos. Eles terão a função de levar ao plenário exatamente as decisões tomadas coletivamente pela plataforma.
Criada por Carlos Redondo, integrante da comunidade zenú, na costa caribenha do país, Gaitana foi concebida como uma alternativa ao modelo tradicional de representação política. Segundo Redondo, a ideia surgiu a partir da cosmovisão indígena, que valoriza o consenso e a escuta coletiva, e não o protagonismo individual.
De acordo com o criador, a plataforma funciona de forma participativa. Os usuários enviam temas e propostas, a IA organiza e sintetiza o conteúdo e, em seguida, coleta as opiniões da comunidade. A decisão final é tomada com base na maioria simples, critério que também seria adotado na análise e votação de projetos de lei, caso a candidatura seja bem-sucedida.
Quando um projeto chega ao Congresso, a proposta é resumida pela IA em materiais visuais e explicativos, que são compartilhados com os integrantes da comunidade. Atualmente, mais de 10 mil pessoas, entre indígenas e afrodescendentes, participam do processo. As opiniões são contabilizadas, e a posição que alcançar 50% mais um dos votos passa a representar o consenso.
Questionado sobre a possibilidade de boicote ou manipulação das decisões, Redondo afirma que isso só ocorreria com uma mobilização muito expressiva. Segundo ele, seriam necessárias cerca de 6 mil pessoas atuando de forma coordenada para distorcer os resultados, o que tornaria o processo visível e passível de contestação interna.
O criador também destaca que a infraestrutura tecnológica é enxuta, composta por apenas três pequenos servidores, o que reduziria o impacto ambiental. Ainda assim, reconhece limitações relacionadas à segurança de dados e à capacidade de lidar com grandes volumes de opiniões divergentes.
Redondo define o projeto como uma proposta antissistema e critica o desempenho recente do Legislativo colombiano. Para ele, a automação de processos e a eliminação de estruturas tradicionais, como gabinetes e benefícios parlamentares, podem contribuir para uma atuação mais eficiente e transparente.
Apesar da repercussão, sobretudo entre jovens, ainda é incerto o alcance eleitoral da iniciativa. Pesquisas indicam que apenas cerca de um terço dos eleitores com menos de 24 anos pretende votar, o que pode limitar o impacto direto da candidatura nas urnas.
