O nome de Suzane von Richthofen voltou ao centro do debate público após a Netflix obter autorização para produzir um documentário sobre sua trajetória. A obra, com título provisório “Suzane vai falar”, traz uma entrevista inédita desde que ela passou ao regime aberto, em 2023. Segundo informações, o contrato teria custado cerca de R$ 500 mil o que trouxe questionamentos sobre os limites legais para que condenados lucrem com crimes que cometeram.
O nome de Suzane von Richthofen voltou ao centro do debate público após a Netflix obter autorização para produzir um documentário sobre sua trajetória. A obra, com título provisório “Suzane vai falar”, traz uma entrevista inédita desde que ela passou ao regime aberto, em 2023.
Segundo informações, o contrato teria custado cerca de R$ 500 mil o que trouxe questionamentos sobre os limites legais para que condenados lucrem com crimes que cometeram.
Em entrevista exclusiva ao Bacci Notícias, o procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Nadir de Campos Júnior, que participou do julgamento de Suzane em 2006, analisou o caso sob a ótica jurídica e criticou o que considera uma distorção no sistema.
“Empresária do crime”
De acordo com o procurador, Suzane foi condenada a 39 anos e seis meses de prisão por duplo homicídio qualificado, por motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa das vítimas, além de fraude processual.
Segundo ele, mesmo durante o cumprimento da pena, Suzane já demonstrava capacidade de transformar sua história em fonte de renda.
“No semiaberto, ela já dava entrevistas e, pelas informações que nos chegam, recebia valores em dinheiro para dar essas entrevistas.”
Campos Júnior também citou o episódio envolvendo o livro “Suzane: Assassina e Manipuladora”, do jornalista Ulisses Campbell, cuja publicação foi autorizada por decisão do Supremo Tribunal Federal.
“Ela é um best-seller nos livros, ela é uma grande empresária do crime […] e ela é uma pop-star do crime”, afirmou.
Para o procurador, há uma contradição na postura da condenada:
“Num determinado momento, para ela, interessa o anonimato e, num outro momento, lhe interessa a celebridade. E parece que a celebridade está muito e intimamente ligada ao levantamento de valores em dinheiro.”

Suzane von Richthofen – Reprodução: Redes Sociais
Lacunas na legislação
Durante a entrevista, o promotor relembrou que, já à época do julgamento, o Ministério Público defendia mudanças legais para evitar que autores de crimes graves se beneficiassem financeiramente.
“Não é possível alguém matar o pai e a mãe e no outro dia ir na Justiça tentar levantar o prêmio do seguro de vida. Não é razoável que alguém ingresse no rol de sucessão hereditária sendo o autor dos crimes.”
Ele destaca que, mesmo após os assassinatos, Suzane permaneceu apta a figurar como herdeira, inclusive em relação ao patrimônio de um tio falecido recentemente.
“Suzane entra na ordem de sucessão hereditária do pai e da mãe e agora do tio e continua com a legislação favorável.”
O procurador defende alterações tanto no direito penal quanto no civil:
“Quem mata pai, mata mãe, não poderia, em tese, entrar num rol de sucessão hereditária. Que esse dinheiro vá para o Estado ou para outro parente, menos aquele que matou.”
Monetização de crimes
Outro ponto levantado por Campos Júnior é o risco de que produções audiovisuais baseadas na versão do próprio condenado possam influenciar tentativas de revisão criminal.
“É a própria autora do crime que está fazendo o roteiro, ganhando entre 500 mil reais a 1 milhão de reais por cada um dos finais felizes.”
Ele alerta que isso pode abrir brechas para novas estratégias de defesa e afirma que é necessário restringir esse tipo de possibilidade:
“Nós precisaríamos de uma legislação que inviabilizasse pedidos de revisão criminal nesses casos.”
Progressão de pena e benefícios
O procurador também criticou a possibilidade de progressão de regime em crimes de alta gravidade e mencionou preocupações com laudos que indicariam risco de reincidência.
Sobre o fato de Suzane ter constituído família e tido um filho, ele sugere que isso pode influenciar benefícios legais:
“Há uma legislação com tendência mais benéfica para presas que têm filhos de tenra idade.”
Ainda assim, ele destaca o perfil estratégico da condenada:
“Nós estamos falando de uma ré extremamente inteligente […] Suzane está em condições de dar aula de pós-graduação para muitos bacharéis de direito, sempre que o interesse lhe favoreça.”
Influência social e necessidade de mudança
Por fim, Campos Júnior avalia que casos como o de Suzane podem gerar efeitos sociais preocupantes, ao transformar criminosos em figuras midiáticas.
“Matar alguém me parece que virou, às vezes, até forma de exposição nas redes sociais.”
Ele defende que o Congresso Nacional avance em mudanças legislativas:
“Nós poderíamos pensar numa alteração legislativa em que o preso não poderia monetizar […] fatos que não estejam dentro do processo penal.”
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