Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), com apoio da Fapesp, alcançaram um feito inédito ao criar o primeiro porco clonado na América Latina com potencial para uso em transplantes de órgãos humanos. O avanço representa um passo importante no desenvolvimento do xenotransplante, técnica que pode ajudar a ampliar a oferta de órgãos e reduzir a fila de espera no Sistema Único de Saúde.

Primeiro porco clonado no Brasil (Foto: Docme Comunicação para Genoma USP/divulgação)
Primeiro porco clonado no Brasil (Foto: Docme Comunicação para Genoma USP/divulgação)

O Brasil alcançou um avanço inédito na área científica ao desenvolver o primeiro porco clonado com potencial para uso em transplantes de órgãos humanos. A conquista é resultado de pesquisas conduzidas pela Universidade de São Paulo (USP), com apoio da Fapesp, que divulgou nesta quinta-feira (23 ) pela Agencia Fapesp Brasil.

Entre os responsáveis pelo projeto está o cirurgião Silvano Raia, professor da Faculdade de Medicina, ao lado da geneticista Mayana Zatz, vinculada ao Instituto de Biociências e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco, unidade apoiada pela Fapesp. Também integra a liderança do estudo o imunologista Jorge Kalil, igualmente professor da Faculdade de Medicina da USP.

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Primeiro porco clonado no Brasil (Foto: Docme Comunicação para Genoma USP/divulgação)

O projeto teve início em 2019 e culminou no nascimento do primeiro animal clonado na América Latina com essa finalidade. O porco nasceu saudável, pesando cerca de 1,7 kg, em um laboratório localizado em Piracicaba, após um período de gestação de aproximadamente quatro meses.

O feito é considerado um passo importante para o avanço do xenotransplante, técnica que consiste na utilização de órgãos de animais em humanos. A expectativa dos pesquisadores é que esse tipo de inovação contribua, no futuro, para reduzir a fila de transplantes no Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando as possibilidades de tratamento para pacientes que aguardam por doações.

Desafio da rejeição imunológica

Embora o avanço seja considerado promissor, a utilização de órgãos de animais em humanos ainda enfrenta um obstáculo importante, a rejeição imediata pelo sistema imunológico. Para superar essa barreira, pesquisadores têm recorrido a técnicas de modificação genética capazes de tornar os tecidos mais compatíveis com o organismo humano.

No estudo conduzido no Brasil, os cientistas empregaram a tecnologia CRISPR/Cas9 para alterar o DNA dos suínos. O processo incluiu a desativação de genes responsáveis por desencadear rejeição e a inserção de genes humanos nas células do animal, com o objetivo de reduzir a resposta imunológica em futuros transplantes.

Os porcos são vistos como candidatos ideais nesse tipo de pesquisa por apresentarem semelhanças com o corpo humano, especialmente no tamanho e no funcionamento de seus órgãos. Além disso, possuem crescimento rápido e alta taxa reprodutiva, o que favorece a produção em maior escala. Em poucos meses, esses animais já atingem porte adequado para possíveis doações.

Esse avanço reforça o potencial do xenotransplante, técnica que pode representar uma alternativa para ampliar a oferta de órgãos e, no futuro, contribuir para reduzir a fila de espera por transplantes no SUS.

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Foco em órgãos com maior demanda no SUS

O projeto desenvolvido no Brasil concentra seus esforços iniciais na produção de órgãos e tecidos como rim, coração, córnea e pele, que juntos representam cerca de 94% das demandas por transplantes no SUS.

A proposta é que, no futuro, essas estruturas possam ser utilizadas tanto como solução definitiva quanto de forma temporária, servindo como suporte até a disponibilização de um órgão humano compatível.

Para garantir a segurança do processo, os animais são mantidos em ambientes altamente controlados, com rigorosas normas sanitárias, reduzindo ao máximo o risco de transmissão de doenças. Apesar dos avanços, o xenotransplante ainda não faz parte da prática clínica. Pesquisas seguem em andamento em países como Estados Unidos e China, mas ainda não há autorização para uso em larga escala.

Mesmo assim, testes iniciais já indicam resultados promissores, com relatos de órgãos suínos que conseguiram funcionar por meses em pacientes humanos em caráter experimental. Especialistas alertam que, caso a tecnologia avance apenas no exterior, o Brasil pode enfrentar desafios, já que depender da importação de órgãos seria uma alternativa complexa e pouco viável para o sistema público de saúde.

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