O relatório final do Cenipa sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), em agosto de 2024, conclui que a tragédia resultou de uma cadeia de falhas envolvendo pilotos, empresa e órgão regulador. A aeronave decolou com o sistema de degelo em pane — falha conhecida mas não registrada —, voou numa rota com previsão de gelo severo sem adequação do planejamento, e os pilotos ignoraram alertas sucessivos enquanto mantinham conversas pessoais na cabine. A Voepass operava com cultura de segurança fragilizada e normalização de desvios há anos.
O avião da Voepass que caiu em Vinhedo (SP) no dia 9 de agosto de 2024, matando os 62 ocupantes, foi derrubado por uma cadeia de falhas que começou muito antes da decolagem — e que envolveu pilotos distraídos, um sistema de degelo com defeito conhecido, uma empresa com cultura de segurança fragilizada e uma agência reguladora que identificou os problemas, mas não conseguiu detê-los a tempo. Essa é a conclusão do relatório final de investigação do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), documento de 266 páginas publicado em 23 de julho de 2026 e obtido pelo Bacci Notícias.

A aeronave, um ATR-72 212A, decolou do Aeródromo de Cascavel (PR) às 14h58 (UTC) com destino ao Aeroporto de Guarulhos (SP), com 4 tripulantes e 58 passageiros. Durante o voo de cruzeiro no nível FL170 (cerca de 17 mil pés de altitude), encontrou condições severas de formação de gelo.
- Leia também:
Avião da Voepass nunca deveria ter decolado, aponta relatório
Sem o sistema de degelo funcionando, o gelo se acumulou nas asas, o arrasto aerodinâmico aumentou, a velocidade caiu progressivamente, a aeronave entrou em stall — condição de perda de sustentação — e despencou em parafuso, completando cinco voltas à esquerda em 68 segundos, com taxa de descida de 14 mil pés por minuto, até colidir contra uma área residencial.
A aeronave já saiu com o sistema de degelo em pane
Um dos pontos centrais do relatório é que o sistema Airframe De-Icing — responsável por inflar boots nas asas e na empenagem para quebrar o gelo acumulado — apresentava falha antes mesmo do voo fatal. Nos três voos realizados pela mesma aeronave nos dias anteriores ao acidente, o sistema já havia registrado alertas de falha. Em todos os casos, as tripulações tentaram resetar o sistema manualmente e não registraram a pane no diário de bordo técnico (TLB).

Foto: Divulgação/CENIPA
Sem registro formal, a falha nunca chegou à equipe de manutenção de forma oficial. Nenhuma ação corretiva foi tomada. O relatório do Cenipa é direto: havia uma “cultura de não registrar panes” entre os pilotos da empresa, motivada pelo receio de que o registro resultasse na indisponibilidade prolongada da aeronave. A pressão para manter os voos acontecendo era maior do que o protocolo de segurança.
No voo imediatamente anterior ao acidente — realizado pela mesma dupla de pilotos — a falha do Airframe De-Icing voltou a aparecer. Alertas de degradação de performance foram ativados. A aeronave teve que descer de nível para recuperar velocidade. Mesmo assim, nada foi registrado no TLB. Nenhum protocolo foi acionado entre os pilotos e o Centro de Controle Operacional (CCO) da empresa.

Foto: Divulgação/CENIPA
O voo decolou mesmo com previsão de gelo severo na rota
A documentação meteorológica disponível antes do voo já indicava a formação de gelo severo entre os níveis FL120 e FL210 — exatamente a faixa em que o avião voaria. Um SIGMET (alerta meteorológico significativo) emitido para a FIR Curitiba previa essa condição para o período do voo, cobrindo praticamente toda a rota.
O relatório aponta que a tripulação teve acesso a essas informações antes de decolar. O despachante operacional de voo (DOV) e o CCO da empresa também dispunham dos dados. Ainda assim, o voo foi despachado para o FL170, dentro da faixa de risco, sem qualquer adequação de rota ou nível de voo. O Cenipa concluiu que as condições meteorológicas não foram avaliadas adequadamente pelo CCO, pelo DOV e pelo comandante antes da decolagem.
Há um agravante: a aeronave também estava autorizada a voar com um dos limpadores de para-brisa inoperante. A regra estabelecia que, nessa condição, não poderia haver previsão de chuva no destino dentro de uma janela de uma hora antes ou depois do pouso. Havia. O despacho foi irregular, mas essa falha, segundo o relatório, não teve influência direta na queda.

Foto: Divulgação/CENIPA
Os alertas durante o voo foram ignorados um a um
Após atingir o nível de cruzeiro no FL170, o cenário se deteriorou rapidamente. O detector de gelo identificou acúmulo nas asas. O sistema Airframe De-Icing foi ligado pelos pilotos, mas falhou em menos de um minuto — o mesmo problema dos voos anteriores, relacionado aos boots da asa direita. Os pilotos desligaram o sistema e não executaram o procedimento previsto no manual (QRH) para essa situação, que determinava sair da área de gelo imediatamente.
A partir desse momento, o sistema de monitoramento de performance da aeronave (APM) passou a emitir alertas sucessivos. O aviso CRUISE SPEED LOW — indicando que a velocidade estava pelo menos 10 kt abaixo do mínimo calculado — foi acionado oito vezes ao longo do voo. O alerta DEGRADED PERFORMANCE foi ativado 1 minuto e 42 segundos antes do stall warning. O alerta INCREASE SPEED disparou 13 segundos antes do momento em que o sistema de proteção contra stall entrou em ação.
O Cenipa não identificou, nas gravações do CVR (gravador de voz da cabine), qualquer comentário dos pilotos que demonstrasse que eles reconheceram, processaram ou agiram sobre qualquer um desses alertas. Em nenhum momento do voo os pilotos solicitaram descida de emergência ao controle de tráfego aéreo ou declararam situação de emergência.
Conversa pessoal desviou atenção em momentos críticos
O relatório revela que os pilotos mantinham conversas informais e de cunho pessoal durante parcela significativa do voo, inclusive em momentos críticos — durante e imediatamente após o acionamento dos alertas de perda de performance. O Cenipa identificou que o comandante enfrentava problemas pessoais à época do acidente, que foram tema dos diálogos na cabine. Esse estado emocional pode ter influenciado sua postura durante o voo e reduzido seu foco nas operações.
O fenômeno descrito no relatório é técnico: o engajamento em conversas não relacionadas à operação gerou o que se chama de “cegueira por desatenção” e “surdez por desatenção” — a incapacidade de perceber estímulos visíveis e sonoros porque o foco cognitivo está em outro lugar. Os alertas piscaram. Os alarmes soaram. Os pilotos não reagiram.

Foto: Divulgação/CENIPA
O stall e o parafuso: os segundos finais
Quando o stall warning finalmente ativou o stick shaker — dispositivo que vibra o manche para alertar os pilotos sobre a iminência de perda de controle — e depois o stick pusher — que empurra o manche para frente automaticamente na tentativa de recuperar a aeronave —, a resposta dos pilotos foi contrária ao treinamento. Em vez de deixar o manche avançar, houve esforço acima de 10 daN (equivalente a mais de 10 kg de força) no sentido oposto ao do stick pusher, puxando o nariz do avião para cima.
Esse esforço diferencial ativou um mecanismo de desacoplamento dos manchetes (pitch uncoupling mechanism), separando os controles dos dois pilotos. A aeronave perdeu o controle. Entrou em parafuso chato, completou cinco voltas à esquerda em 68 segundos e colidiu contra o solo às 16h22 (UTC), destruindo a aeronave e matando todos a bordo.
A empresa: anos de desvios normalizados
O Cenipa dedicou uma extensa seção do relatório à cultura organizacional da Voepass, e o retrato é grave. A investigação concluiu que a empresa operava com um sistema de gerenciamento de segurança (SMS) abaixo da média dos operadores regulados pelo mesmo regulamento, sem converter dados de voo em ações preventivas concretas.
Mecânicos trabalhavam sob pressão, frequentemente em jornadas noturnas com poucas horas disponíveis antes do próximo voo. Em bases secundárias, profissionais recorriam por telefone à sede para entender como executar tarefas, porque tinham dificuldade de ler os manuais técnicos em inglês. Prazos da lista de equipamentos mínimos (MEL) expiravam e eram renovados sem a correção efetiva das falhas. Componentes defeituosos eram substituídos por outros sabidamente com problemas, permitindo mais um despacho.

Foto: Divulgação/CENIPA
Dos 15.365 voos da frota ATR da Voepass analisados entre agosto de 2023 e agosto de 2024, 10,9% apresentaram ativação de algum alerta do sistema APM — percentual significativamente superior ao de outros operadores do mesmo modelo de aeronave. A empresa apresentou o maior índice de ocorrências desse tipo entre todos os operadores comparados. Os dados estavam disponíveis. Não geraram ação.
A Anac: fiscalizou, encontrou problemas, mas não conseguiu frear
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) realizou auditorias e inspeções na Voepass antes do acidente e identificou problemas recorrentes: não conformidades na manutenção, falhas no rastreamento de componentes, descumprimento da MEL e a prática de reportar panes verbalmente sem registro formal. Entre 2022 e 2024, emitiu dez notificações relacionadas especificamente ao sistema Airframe De-Icing e suspendeu cautelarmente aeronaves da empresa em 24 ocasiões só em 2023.

Foto: Divulgação/CENIPA
O Cenipa concluiu que esses sinais — individualmente e em conjunto — não foram convertidos em decisões estratégicas capazes de mitigar os riscos antes do acidente. O sistema de gerenciamento de risco da Anac ainda estava em fase de amadurecimento, segundo o relatório, e não foi suficiente para barrar a continuidade das operações da empresa mesmo com a degradação progressiva dos níveis de segurança.
Após o acidente, a Anac intensificou a fiscalização. Em março de 2025, suspendeu o certificado de operador aéreo e o certificado de organização de manutenção da empresa. Em junho de 2025, cassou definitivamente as certificações e aplicou sanções financeiras.
Fatores contribuintes: o que o Cenipa concluiu oficialmente
O relatório lista os fatores que, segundo o Cenipa, contribuíram para o acidente. Entre eles estão a distração dos pilotos com conversas informais durante o voo; a atitude de prosseguir o voo mesmo com o sistema de degelo em pane e previsão de gelo severo na rota; a ausência de coordenação eficiente na cabine; a complacência gerada pela repetição de alertas que, nos voos anteriores, nunca haviam resultado em consequências; a cultura organizacional permissiva da empresa; as falhas na manutenção e no registro das panes; o planejamento de voo inadequado; a atuação insuficiente da Anac no gerenciamento de risco; e as condições meteorológicas adversas.

Foto: Divulgação/CENIPA
O relatório classifica como “indeterminado” o fator relacionado ao estado emocional do comandante — reconhece a influência, mas não confirma com certeza. O mesmo vale para o treinamento: ambos os pilotos tinham avaliações satisfatórias em simulador para condições de gelo e recuperação de atitudes anormais, mas suas ações durante o voo não foram compatíveis com o nível mínimo de proficiência esperado.
O que muda: recomendações e ações já adotadas
O Cenipa emitiu nove recomendações de segurança. Quatro são direcionadas à fabricante europeia ATR, por meio da agência reguladora europeia EASA, e incluem a revisão dos procedimentos e dos níveis de alerta do sistema APM — o Cenipa recomenda que o alerta INCREASE SPEED seja elevado de nível 2 (caução) para nível 3 (emergência), pois ocorre quando a aeronave já está próxima do limite de perda de controle. Cinco recomendações são para a Anac, incluindo a revisão dos processos de gerenciamento de risco e a divulgação das lições aprendidas para todos os operadores regidos pelo mesmo regulamento.
A ATR já desenvolveu uma nova versão do software do sistema APM (versão 2.0), que amplia a janela de monitoramento e ajusta os parâmetros de ativação dos alertas. Simulações da ATR mostraram que, com a nova versão, o alerta DEGRADED PERFORMANCE teria sido gerado 27 minutos antes do que ocorreu no voo real. A nova versão, no entanto, é compatível apenas com o modelo ATR-72 212A (600), não com o (500) como era a aeronave acidentada. A Anac, por sua vez, tornou obrigatório o programa de monitoramento de dados de voo para todas as aeronaves com peso máximo acima de 15 toneladas e intensificou a fiscalização no setor.
Leia mais no Bacci Notícias: