A execução do delegado Ruy Ferraz Fontes em Praia Grande, atingido por tiros de fuzil, é investigada sob duas frentes. A Polícia Civil abriu inquérito para apurar fraudes e lavagem de dinheiro na prefeitura, após encontrar no notebook da vítima um rascunho de denúncia envolvendo servidores municipais. Paralelamente, o MPSP denunciou oito pessoas ligadas ao PCC pela execução, indicando retaliação à atuação de Ruy contra o crime organizado. Os promotores apontam que o crime teria sido planejado desde março.
Executado a tiros de fuzil em Praia Grande, no litoral paulista, em 15 de setembro, o delegado-geral da Polícia Civil Ruy Ferraz Fontes mantinha em seu notebook o rascunho de uma denúncia a ser apresentada ao Ministério Público de São Paulo (MPSP).
O texto, que não havia sido finalizado, relatava suspeitas de fraude em procedimentos licitatórios e de lavagem de dinheiro na prefeitura da cidade litorânea, com o possível envolvimento de servidores públicos e empresários, conforme anotado pela própria vítima.
Abertura de investigação
Após a localização desse rascunho, o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) considerou indispensável apurar se a atuação funcional de Ruy Ferraz Fontes na prefeitura teria alguma relação com o homicídio.
De acordo com o relatório final do inquérito, concluído em 13 de novembro, o departamento de homicídios determinou medidas cautelares em relação a alguns servidores municipais, mesmo com a participação de integrantes do Primeiro Comando da Capital(PCC) apontada na execução.
O objetivo era “verificar a existência ou não de vinculação na morte de Ruy Ferraz com sua atuação na prefeitura”. Por conta disso, um segundo inquérito foi aberto, desta vez no Departamento Estadual de Investigações Criminais(DEIC), com foco exclusivo em apurar possíveis fraudes em licitação e lavagem de dinheiro originadas na administração municipal.
Em outubro, cinco servidores municipais foram alvos de mandados de busca e apreensão, incluindo Sandro Rogerio Pardini, subsecretário de Gestão e Tecnologia.
A linha de investigação
A linha de investigação sobre as atividades do delegado na prefeitura considera, além do rascunho encontrado, depoimentos de funcionários municipais prestados à época do crime. As testemunhas relataram que Ruy Ferraz vinha atuando de forma incisiva em setores onde tramitavam processos administrativos sensíveis. Parte das testemunhas afirmaram ter conversado com ele sobre rotinas internas e procedimentos licitatórios.
Um engenheiro da prefeitura, identificado como Rodrigo Orlando, declarou aos investigadores ter tratado sobre “determinadas circunstâncias de licitações que estavam em trâmite na prefeitura”, segundo consta no processo. Outros funcionários das áreas de planejamento, tecnologia e integração de informações também prestaram depoimento, indicando que o ex-delegado-geral havia se aprofundado em fluxos estratégicos para o controle de gastos públicos.
Um parecer do DHPP sugere que Ruy pode ter “embaraçado situações recentes durante sua atuação na administração municipal, o que possa ter acarretado nesta ação praticada com extrema violência”, deduzindo uma possível interferência direta em interesses suspeitos dentro do governo local.
A denúncia do Ministério Público de São Paulo
Paralelamente, o MPSP, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado(GAECO), denunciou, na sexta-feira, dia 21 de novembro, oito pessoas pelo assassinato do delegado.
A denúncia imputou aos oito suspeitos os crimes de homicídio qualificado, duas tentativas de homicídio, porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, favorecimento pessoal e organização criminosa armada.
De acordo com o MPSP, a complexa logística, que incluiu roubo de veículos, aquisição de armas e definição de locais de apoio, aponta para uma ação do crime organizado. Os promotores indicam que o mando do crime seria do PCC, como retaliação à atuação de Ruy Ferraz contra o grupo criminoso entre 2019 e 2022, época em que chefiou a Polícia Civil. O texto da denúncia cita o episódio da “Sintonia dos 14” em 2019, inferindo que a ordem da facção criminosa foi assumida pelos investigados ao menos desde março de 2025.
