Jovem desapareceu na década de 80, em Roma, após aula de música
Jovem desapareceu na década de 80, em Roma, após aula de música

O desaparecimento de Emanuela Orlandi completa mais de quatro décadas como o maior mistério da história policial italiana. A jovem de 15 anos sumiu no centro de Roma, no dia 22 de junho de 1983, após sair de uma aula de flauta.

Por ser filha de um funcionário da Prefeitura da Casa Pontifícia, que trabalhava diretamente com o papa e morava dentro dos muros da Cidade do Vaticano, o caso imediatamente deixou de ser um sumiço comum para se transformar em uma guerra de poder envolvendo a Igreja, os serviços secretos da Guerra Fria e o crime organizado italiano.

Logo após o sumiço, o jornal Il Messaggero registrou ligações anônimas de um homem que se identificava como “Pierluigi”. Os sequestradores exigiam a libertação de Mehmet Ali Agca, o extremista turco que tentou assassinar o papa João Paulo 2º em 1981. O próprio Agca chegou a declarar na prisão que a adolescente estava viva e em poder de grupos islâmicos, mas suas versões contraditórias fizeram a polícia mudar o foco da investigação para o crime organizado de Roma.

A linha de investigação mais evidente aponta para a Banda della Magliana, a máfia mais sangrenta da capital italiana na época. O chefe da organização, Enrico “Renatino” De Pedis, teria comandado o sequestro para forçar o Banco do Vaticano a pagar dívidas milionárias ligadas à falência do Banco Ambrosiano.

O caso ganhou novos desdobramentos quando Sabrina Minardi, ex-namorada do mafioso, revelou em depoimento que Renatino matou a menina sob as ordens do cardeal Paul Marcinkus, ex-presidente do banco da Igreja, após o pai de Emanuela ter visto documentos sigilosos e comprometedores. A informação, no entanto, não foi confirmada pelas autoridades do país.

O caso envolvendo o Vaticano gerou buscas frustradas e pistas falsas ao longo dos anos. O próprio mafioso Renatino conseguiu ser enterrado na cripta da basílica de São Apolinário mediante um donativo de 450 mil euros. Em 2012, a polícia abriu o sarcófago em busca do corpo de Emanuela, mas só encontrou caixas com ossos do século 18.

Anos depois, escavações no Cemitério Teutônico do Vaticano abriram túmulos que estavam completamente vazios, e testes de DNA em fragmentos achados na embaixada em Roma comprovaram que a ossada pertencia a uma época muito anterior ao crime.

Segundo informações publicadas pelo Portal UOL, vazamentos de supostos recibos indicavam que a Santa Sé gastou bilhões de liras para manter a jovem escondida em Londres, na Inglaterra, com consultas ginecológicas pagas, documento que o Vaticano classificou como ridículo.

Até o momento, o caso continua sob investigação ativa após o Parlamento Italiano abrir uma comissão de inquérito inédita e o próprio Vaticano reabrir sua apuração interna sob o comando do promotor Alessandro Diddi. O irmão de Emanuela, Pietro Orlandi, segue liderando as cobranças por respostas e chegou a acusar João Paulo 2º de acobertamento, provocando uma forte reação pública do Papa Francisco em defesa da memória do pontífice polonês. Mais de 40 anos depois, o destino da “Vatican Girl” permanece sem solução na Itália. 

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