O Banco Central arquivou, em 2024, alertas da Polícia Federal sobre suspeitas no Banco Master, incluindo possível controle oculto. Meses depois, a instituição foi liquidada em meio a investigações de fraude. O caso também envolve servidores do BC suspeitos de repassar informações sigilosas.
O Banco Central recebeu, em julho de 2024, um ofício da Polícia Federal com indícios de possíveis irregularidades envolvendo o Banco Master, incluindo a suspeita de que o empresário Nelson Tanure seria o verdadeiro controlador da instituição. Em resposta, a autoridade monetária informou que as denúncias já haviam sido avaliadas internamente e acabaram arquivadas. As informações foram divulgadas com exclusividade pela jornalista Nathalia Fruet, do SBT News.
Naquele período, o Banco Central era comandado por Roberto Campos Neto, que permaneceu no cargo até o fim de 2024. Meses depois, em novembro, o próprio BC determinou a liquidação do Banco Master, em meio a investigações que apontam para um dos maiores escândalos financeiros já registrados no país.
Análise interna e arquivamento
A resposta do órgão foi encaminhada ao delegado Gleydson Machado Calheiros, da Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros da Polícia Federal em São Paulo. No documento, o BC afirmou que as suspeitas já estavam sob análise desde 2023, quando o fundo ESH Theta apresentou questionamentos semelhantes.
Segundo a autarquia, as informações foram examinadas durante o processo de aumento de capital do banco. Após consulta a diferentes áreas técnicas, o entendimento foi de que não havia necessidade de abrir uma investigação específica naquele momento.
O Banco Central também destacou que sua decisão considerou documentos enviados por representantes do banqueiro Daniel Vorcaro e que a instituição já realizava acompanhamento contínuo das operações por meio de seus mecanismos de supervisão.
Áreas envolvidas e competência
As denúncias envolvendo Vorcaro passaram por diversos setores internos do BC, entre eles o Departamento de Supervisão Bancária (Desup), o Departamento de Resolução e de Ação Sancionadora (Derad), o Departamento de Organização do Sistema Financeiro (Deorf) e o Departamento de Supervisão de Cooperativas e de Instituições Não Bancárias (Desuc).
Em outro trecho, o órgão afirmou que eventuais irregularidades relacionadas a operações societárias não estavam sob sua competência, mas sim da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Investigações e termo de compromisso
Desde 2023, a Polícia Federal já mantinha dois inquéritos abertos para apurar suspeitas envolvendo o Banco Master e fundos de investimento ligados a Vorcaro. Mesmo assim, o Banco Central optou por não avançar com um procedimento próprio naquele momento.
A resposta foi enviada quatro meses antes de Vorcaro firmar um termo de compromisso com o BC, em novembro de 2024, comprometendo-se a ajustar práticas de gestão da instituição.
Suspeita de envolvimento de servidores
As investigações mais recentes, conduzidas no âmbito do Supremo Tribunal Federal, revelaram ainda suspeitas de envolvimento de dois servidores do BC com o banqueiro. Paulo Sérgio Neves de Souza, então diretor de Fiscalização, e Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária à época, são investigados por supostamente prestar consultoria informal e repassar informações sigilosas.
De acordo com a apuração, os dois teriam recebido pagamentos por meio de uma empresa ligada a Vorcaro. Em mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro, ele pede ajuda a um dos servidores, alegando que o Banco Central estaria dificultando seus negócios.
Atualmente, ambos estão afastados de suas funções, utilizam tornozeleira eletrônica e respondem a uma sindicância interna, que corre sob sigilo e pode levar à demissão.
Posicionamento
Procurado, Roberto Campos Neto não se manifestou. Pessoas próximas à gestão anterior afirmam que a resposta à Polícia Federal foi elaborada por um setor técnico do Banco Central e não chegou à diretoria colegiada nem ao então presidente da instituição.
Em nota, o Banco Central informou que não comenta casos que estejam sob investigação ou protegidos por sigilo.
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