A proposta da Alphabet, empresa controladora do Google, de liberar cerca de 32 milhões de mosquitos nos estados da Califórnia e da Flórida reacendeu o debate sobre novas tecnologias utilizadas no combate a doenças transmitidas por insetos.
A proposta da Alphabet, empresa controladora do Google, de liberar cerca de 32 milhões de mosquitos nos estados da Califórnia e da Flórida reacendeu o debate sobre novas tecnologias utilizadas no combate a doenças transmitidas por insetos.

Projeto apoiado pela controladora do Google pretende liberar milhões de mosquitos com bactéria Wolbachia nos Estados Unidos; tecnologia semelhante já é utilizada em cidades brasileiras para combater dengue, zika e chikungunya. Foto: Fiocruz
O projeto, conhecido como Debug, pretende utilizar mosquitos machos infectados com a bactéria Wolbachia para reduzir a população de espécies responsáveis pela transmissão de doenças. A iniciativa aguarda autorizações regulatórias nos Estados Unidos e faz parte de uma estratégia que busca alternativas ao uso de inseticidas convencionais.
Embora a ideia de soltar milhões de mosquitos no ambiente possa parecer contraditória, os pesquisadores afirmam que o objetivo é justamente diminuir a quantidade de insetos capazes de transmitir enfermidades.
Como funciona a tecnologia
O método utiliza mosquitos machos portadores da bactéria Wolbachia, um microrganismo encontrado naturalmente em diversas espécies de insetos.
Quando esses machos se reproduzem com fêmeas da população local que não possuem a bactéria, os ovos gerados não se desenvolvem adequadamente, reduzindo gradualmente a população de mosquitos ao longo do tempo.
Os responsáveis pelo projeto destacam que apenas as fêmeas picam seres humanos. Os machos liberados no ambiente não se alimentam de sangue e não transmitem doenças.
Segundo os pesquisadores, a estratégia pode ajudar no controle de enfermidades transmitidas por mosquitos, além de diminuir a dependência de produtos químicos utilizados no combate aos insetos.
Brasil já utiliza método semelhante
Enquanto a proposta ainda gera discussões nos Estados Unidos, o Brasil já utiliza uma tecnologia baseada na bactéria Wolbachia há mais de uma década.
Desde 2014, programas de controle vêm liberando mosquitos Aedes aegypti contendo a bactéria em diversas cidades brasileiras. Nesse caso, o objetivo não é reduzir a população dos insetos, mas dificultar que eles transmitam vírus como dengue, zika e chikungunya.
A bactéria interfere na capacidade de multiplicação desses vírus dentro do organismo do mosquito, reduzindo significativamente as chances de transmissão para os seres humanos.
As primeiras liberações ocorreram em comunidades do Rio de Janeiro e de Niterói, e posteriormente o programa foi ampliado para outras regiões do país.
Maior biofábrica do mundo
O avanço da iniciativa no Brasil levou à criação da Wolbito do Brasil, considerada uma das maiores estruturas de produção de mosquitos com Wolbachia do mundo.
A unidade é operada pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP) em parceria com o World Mosquito Program (WMP) e abastece projetos realizados em diferentes cidades brasileiras.
Os defensores da tecnologia afirmam que ela pode contribuir para a redução de casos de dengue e outras arboviroses, além de diminuir custos com internações e tratamentos.
Debate sobre transparência
Apesar dos resultados apresentados por pesquisadores e órgãos de saúde, a expansão da tecnologia também tem sido alvo de questionamentos.
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Críticos apontam que programas dessa dimensão deveriam contar com debates públicos mais amplos, audiências e campanhas educativas de alcance nacional para esclarecer a população sobre os métodos utilizados.
Embora o uso da tecnologia tenha recebido aprovações regulatórias e seja acompanhado por estudos científicos, especialistas defendem que a discussão sobre impactos sociais, ambientais e éticos deve acompanhar a expansão dessas iniciativas.
Combate às arboviroses
O aumento dos casos de dengue em diferentes países tem impulsionado a busca por novas ferramentas de controle vetorial. Nesse cenário, tecnologias envolvendo a bactéria Wolbachia vêm ganhando espaço como complemento às ações tradicionais, como eliminação de criadouros, campanhas de conscientização e uso de inseticidas.
A possível liberação de 32 milhões de mosquitos nos Estados Unidos reforça uma tendência observada em diversas partes do mundo: o uso crescente de soluções biológicas para enfrentar doenças transmitidas por mosquitos.
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