A família apresentou milhares de páginas de relatórios e documentos para comprovar o desempenho acadêmico das meninas, incluindo estudos de idiomas, música, leitura e outras atividades educacionais. Mesmo assim, o caso gerou debates sobre os limites legais da educação domiciliar, o papel da escola na socialização das crianças e os impactos de uma possível regulamentação do homeschooling.
O caso de uma família de Jales, no interior de São Paulo, voltou a colocar o ensino domiciliar no centro das discussões no país. Um casal foi condenado pela Justiça após decidir retirar as duas filhas, de 11 e 15 anos, do ensino tradicional para adotar a educação em casa, prática que ainda não possui regulamentação legal no Brasil.

Imagem Ilustrativa (Foto: Reprodução)
A situação foi comunicada ao Conselho Tutelar pela própria instituição onde as adolescentes estudavam anteriormente, depois que os pais informaram que elas deixariam de frequentar as aulas presenciais. O episódio acabou se transformando em processo judicial e reacendeu debates sobre os limites legais do homeschooling.
Na tentativa de comprovar a qualidade da formação oferecida às filhas, os responsáveis reuniram milhares de páginas de relatórios, avaliações e registros acadêmicos. Entre as atividades apresentadas estavam estudos de idiomas, música, leitura intensiva e outras práticas educacionais desenvolvidas fora do ambiente escolar.
Apesar da documentação apresentada pela defesa, a Justiça entendeu que houve abandono intelectual. O juiz responsável pelo caso determinou a condenação do casal, mas autorizou a suspensão condicional da pena, desde que sejam cumpridas exigências estabelecidas pela decisão judicial.
O que é ‘homeschooling’?
O ensino domiciliar é uma modalidade em que os próprios pais assumem a responsabilidade pela formação acadêmica dos filhos fora do ambiente escolar tradicional, podendo conduzir diretamente as atividades educacionais ou contar com o apoio de professores particulares e plataformas de ensino.
No Brasil, o movimento reúne grupos organizados em associações espalhadas por diferentes estados, que defendem a liberdade das famílias para decidir qual modelo educacional consideram mais adequado para crianças e adolescentes.
Os apoiadores da prática afirmam que o objetivo principal é garantir autonomia na educação e maior participação dos pais no processo de aprendizagem.
Especialistas em políticas educacionais apontam, porém, que o perfil do movimento mudou nos últimos anos. Se antes havia uma diversidade maior de argumentos ligados a métodos pedagógicos e críticas ao sistema escolar, atualmente parte das discussões passou a ser associada também a pautas ideológicas e conservadoras.
Pesquisadores afirmam que setores favoráveis ao homeschooling têm ampliado articulações políticas e aproximado o debate de outros temas nacionais relacionados à educação, como propostas sobre neutralidade ideológica nas escolas e modelos de ensino militarizado.
Para críticos, o discurso costuma ser apresentado como uma reação às transformações culturais e sociais discutidas dentro do ambiente escolar.
Homeschooling é permitido no Brasil?
Atualmente, o ensino domiciliar não é permitido no Brasil. O projeto que pretende regulamentar o ensino domiciliar no Brasil segue em análise no Senado Federal.
A proposta, identificada como PL nº 1338/2022, originada anteriormente na Câmara dos Deputados, prevê alterações na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e também no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com o objetivo de permitir oficialmente a educação básica realizada em casa, conhecida como homeschooling.
Atualmente, o texto aguarda inclusão na pauta da Comissão de Educação e Cultura do Senado. A matéria está pronta para votação desde outubro de 2025, após receber parecer favorável da relatora, a senadora Professora Dorinha Seabra.
O debate sobre o tema ganhou força após decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2018. Na ocasião, o STF entendeu que o ensino domiciliar não viola a Constituição Federal, mas determinou que a modalidade só pode ser aplicada caso exista uma legislação específica estabelecendo regras, critérios de acompanhamento e mecanismos de fiscalização por parte do poder público.
Estados e municípios avançaram com leis sobre homeschooling
Mesmo sem uma regulamentação nacional sobre ensino domiciliar, algumas regiões do país avançaram com propostas próprias para tentar autorizar a prática. O Distrito Federal e cidades como Cascavel, no Paraná, e Vitória, no Espírito Santo, aprovaram normas relacionadas ao homeschooling, enquanto outros estados, como Santa Catarina, também discutiram iniciativas semelhantes.
Apesar disso, especialistas destacam que essas legislações locais enfrentam instabilidade jurídica. Decisões do Supremo Tribunal Federal têm derrubado normas estaduais, municipais e distritais sob o entendimento de que apenas a União pode estabelecer regras gerais sobre educação no país.
Representantes de entidades favoráveis ao homeschooling contestam essa interpretação. Para integrantes do movimento, a Constituição permitiria que estados também legislassem sobre o tema na ausência de uma lei federal específica.
Segundo defensores da modalidade, o entendimento atual do STF limita iniciativas regionais e dificulta o avanço de projetos voltados à regulamentação da educação domiciliar no Brasil.
Famílias que decidem adotar o ensino domiciliar sem uma regulamentação específica continuam sujeitas a medidas judiciais no Brasil. Especialistas explicam que, na área criminal, os casos costumam ser enquadrados no crime de abandono intelectual, previsto no Código Penal, embora poucas ações tenham avançado até condenações efetivas.
Segundo defensores do homeschooling, a maior parte dos conflitos envolvendo educação domiciliar ocorre nas esferas cível e administrativa. Nesses casos, os processos geralmente são baseados no entendimento de que a criança estaria tendo o direito à educação comprometido, conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
“O comum são ações fundamentadas no ECA por suposta violação ao direito à educação, aplicando-se multas para constranger os pais a matricularem a criança. O que acontece na prática é que quase todas as famílias, ao enfrentarem esse nível de pressão do Estado, resolvem matricular os filhos na escola regular e encerrar a questão”, diz Édison Prado de Andrade, advogado e gestor da Associação Brasileira de Defesa e Promoção da Educação Familiar (ABDPEF).
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Especialistas apontam preocupação com socialização
Entre os principais pontos levantados por especialistas contrários ao ensino domiciliar está a preocupação com a limitação da convivência social proporcionada fora do ambiente escolar.
Embora defensores do homeschooling afirmem que crianças e adolescentes mantêm interação em atividades como esportes, cursos, grupos religiosos e projetos culturais, pesquisadores avaliam que essas experiências não substituem completamente a dinâmica diária da escola.
No caso da família de Jales, a defesa apresentou documentos mostrando que as adolescentes participam de diferentes atividades coletivas, incluindo coral, aulas de música, encontros de jovens e clubes de leitura com estudantes matriculados no ensino regular. O objetivo foi demonstrar que as meninas não vivem isoladas socialmente.
Ainda assim, estudiosos da área educacional argumentam que existe diferença entre uma convivência escolhida pelos pais e o contato mais amplo proporcionado pela escola tradicional.
Para especialistas, o ambiente escolar expõe crianças e adolescentes a diferentes opiniões, comportamentos e realidades sociais, favorecendo o desenvolvimento da tolerância, do diálogo e da construção de pensamento crítico.

Avaliação aplicada por família no homeschooling — Foto: Arquivo pessoal
Críticos do homeschooling também apontam que, no ensino domiciliar, os responsáveis acabam tendo controle quase total sobre os conteúdos ensinados, a rotina de aprendizado e até os grupos sociais frequentados pelos filhos, o que pode limitar o contato com visões de mundo diferentes das vividas dentro do próprio núcleo familiar.
Famílias utilizam plataformas e materiais próprios
Famílias que adotam o ensino domiciliar costumam recorrer a diferentes ferramentas pedagógicas para organizar a aprendizagem das crianças, como livros, plataformas digitais, videoaulas e materiais especializados.
Em muitos casos, os próprios pais conduzem parte das disciplinas, enquanto professores particulares são contratados para conteúdos específicos, como matemática, idiomas ou artes.
Com o crescimento do homeschooling nos últimos anos, também surgiu um mercado paralelo voltado exclusivamente para esse público, oferecendo apostilas, cursos on-line, consultorias pedagógicas e sistemas completos de ensino adaptados à educação em casa.
Pesquisadores da área educacional alertam que a proposta em discussão prevê que escolas públicas tenham responsabilidade no acompanhamento dos alunos educados em casa, incluindo avaliações periódicas, supervisão pedagógica e até acesso a espaços físicos das instituições, como laboratórios e quadras esportivas.
Críticos da medida afirmam que isso poderia ampliar ainda mais a sobrecarga da rede pública de ensino, que já enfrenta dificuldades relacionadas à falta de recursos, profissionais e estrutura.
Especialistas apontam limitações econômicas
Especialistas apontam que o ensino domiciliar ainda é uma possibilidade restrita a uma parcela pequena da população brasileira. Isso porque o modelo normalmente exige que um dos responsáveis dedique grande parte do tempo ao acompanhamento da rotina escolar da criança, o que muitas vezes impede o trabalho em tempo integral fora de casa.
Além disso, famílias que optam pelo homeschooling frequentemente precisam investir em plataformas educacionais, materiais pedagógicos e professores particulares.
Atualmente, jovens educados fora da rede tradicional costumam buscar a certificação do ensino médio por meio do Encceja ao atingirem a maioridade. Com uma eventual regulamentação do homeschooling, esses estudantes poderiam ter acesso mais direto a vestibulares, universidades e outros processos seletivos, sem depender necessariamente desse caminho alternativo.
Defensores da modalidade afirmam que o objetivo não é substituir o ensino convencional, mas ampliar as opções disponíveis para as famílias. Para o movimento, o homeschooling funcionaria como uma alternativa complementar ao sistema público e privado de educação.
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