O Ranking do Saneamento de 2026, divulgado nesta semana, pelo Instituto Trata Brasil, apontou sete capitais do Norte e Nordeste como alguns dos piores municípios no tratamento sanitário do país entre as cidades pesquisadas

(Foto: Freepik)
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Um levantamento divulgado esta semana pelo Instituto Trata Brasil (ITB), em parceria com GO Associados, mostrou que sete capitais brasileiras aparecem entre os piores colocados no Ranking do Saneamento de 2026, com destaque negativo para as regiões Norte e Nordeste do país.

A pesquisa considerou apenas os 100 municípios mais populosos do Brasil, utilizando os indicadores mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), ano-base 2024, publicados pelo Ministério das Cidades. De modo geral, o estudo levanta questões urgentes sobre baixos níveis no tratamento de água e esgoto no Brasil.

Saneamento básico no Brasil

Em entrevista ao portal BacciNotícias, o especialista em direito urbano e ambiental Demétrius Jung Gonzalez, presidente da Associação Brasileira de Saneamento (Abrasan), revelou que as cidades historicamente realizaram investimentos insuficientes em políticas públicas voltadas ao tema, fato que se agravou com o decorrer do tempo e o consequente crescimento populacional.

“Tradicionalmente, as cidades, sejam grandes ou pequenas, não focavam na questão do esgotamento sanitário. Muitas delas têm esses índices baixos de coleta e tratamento. As grandes cidades, que têm também as favelas, as comunidades, nessa situação menos ainda se focavam em esgotamento sanitário”, disse.

Entre os 20 piores colocados do levantamento, surpreendem as aparições de algumas das principais cidades nortistas e nordestinas do Brasil:

NORDESTE

  • 86º – Maceió (AL)
  • 90º – São Luís (MA)

NORTE

  • 82º – Manaus (AM)
  • 93º – Macapá (AP)
  • 94º – Belém (PA)
  • 98º – Rio Branco (AC)
  • 99º – Porto Velho (RO)

Nessas regiões, que concentram 14 das 20 piores cidades entre as citadas na pesquisa, a relevância com que as pautas de infraestrutura sanitária foram tratadas também geram preocupação. “No Norte e Nordeste, obviamente a mesma situação se referia. Principalmente no Nordeste, em virtude da questão da seca, do sertão propriamente dito”, destacou Gonzalez.

Ranking de 2026

Segundo o ranking atualizado, os cinco municípios com os melhores indicadores de saneamento estão localizados no estado de São Paulo, sendo Franca (1º), São José do Rio Preto (2º), Campinas (3º) e Limeira (5º) localizados no interior, além de Santos (4º), no litoral paulista. Em comparação com o levantamento anterior, Niterói (RJ), que era o terceiro colocado, caiu para a sétima posição.

Entre os 20 melhores colocados, o nível médio de atendimento da água é de 99,05%, enquanto no esgoto 98,08%, e tratamento em patamares inferiores: apenas 77,97%. A diferença entre os indicadores é ainda mais perceptível nos 20 piores do estudo, sendo 83,01% no atendimento da água, mas apenas 28,06% no esgoto, com o tratamento em 28,36%.

Gonzalez também destacou como os serviços de tratamento de água historicamente receberam prioridade das concessionárias. “O objetivo era levar a água, porque obviamente também dava rentabilidade para os prestadores de serviço, e o esgotamento sanitário sempre foi muito mais caro. E por ele ter sido sempre muito mais caro, as tarifas acabavam não cobrindo esses valores”, destacou.

Investimentos totais por habitante

O Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), principal instrumento federal de planejamento para universalizar o acesso à água, esgoto, resíduos sólidos e drenagem no Brasil até 2033, determina que o investimento necessário para a universalização dos serviços é de R$ 225 por habitante.

Segundo a pesquisa do Instituto Trata Brasil, o investimento médio em saneamento foi de R$ 135,89 por habitante em 2024. Ainda nesse quesito, 51 dos 100 municípios investem menos de R$ 100 por habitante, o que corresponde a menos da metade do patamar considerado ideal.

“A falta sempre foi de uma priorização política e institucional. O problema do esgotamento sanitário é um problema de governança, ele não é meramente um problema de recursos financeiros. A prioridade sempre foi outras questões e isto, obviamente, ao longo do tempo, chegamos nesses indicadores, nesses valores muito baixos de investimentos, mas também não há uma correlação, aumento significativo dos indicadores de esgotamento sanitário quando havia disponibilização de recursos”, apontou o presidente da ABRASAN.

Investimentos totais por habitante

Investimentos totais por habitante (Fonte: SINISA-2024 / Elaboração: GO Associados)

De um lado, Praia Grande (SP) registrou o maior investimento per capita do período, com R$ 572,87, com valores 63 vezes maiores do que Rio Branco (AC), que apresentou o menor valor, de apenas R$ 8,99. Segundo Demétrius Gonzalez, o problema nunca foi de falta de recursos.

“A questão não é o recurso, é a governança, a organização propriamente dita do sistema de saneamento, seja quem vai cobrar, quem vai executar, o papel das agências reguladoras. Inclusos o prestador de serviço, o Tribunal de Contas, Ministério Público e, se todos estivessem concatenados nessa busca, teria sim um maior indicador de universalização, principalmente esgotamento sanitário”, conclui.

Marco Legal do Saneamento Básico

O Marco Legal do Saneamento Básico é o conjunto de regras que organiza o setor de água, esgoto e resíduos no Brasil, atualizado pela Lei nº 14.026/2020. Ele foi criado para ampliar investimentos e universalizar o acesso ao saneamento, com metas rigorosas até 2033.

O objetivo central é que, até o prazo estabelecido, o país alcance 99% da população com acesso a água tratada, além de outros 90% com coleta e tratamento de esgoto.

Na visão de Demetriuz, no entanto, o Brasil está longe de alcançar a meta. “No meu ponto de vista, o Brasil não vai cumprir as metas até 2033, e principalmente se estiver focado em situações de separador absoluto e as soluções tradicionais. A própria ANA [Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico] traz soluções alternativas, e elas são de fato as soluções pro saneamento do Brasil”, destacou.

“Há uma necessidade de valorizar essas soluções, regulamentar em cada do estado e cada do prestador, definir tarifas justas, que cubra os investimentos necessários, mas temos que ter soluções alternativas, que sejam não as melhores, mas que levam água e esgoto para a população, e que num segundo momento serão aprimoradas para chegar no ‘ótimo’ [ideal]. Por enquanto, se a gente conseguir atingir o ‘bom’, já é mais do que suficiente”, reiterou.

Ranking das capitais brasileiras

Todas as 27 capitais brasileiras, incluindo Brasília, no Distrito Federal, entraram para o ranking. No destaque positivo, Goiânia é a primeira colocada das capitais, enquanto Porto Velho é a última.

  • 1º – Goiânia
  • 2º – São Paulo
  • 3º – Curitiba
  • 4º – Campo Grande
  • 5º – Brasília
  • 6º – Palmas
  • 7º – Boa Vista
  • 8º – Florianópolis
  • 9º – Cuiabá
  • 10º – Aracaju
  • 11º – Rio de Janeiro
  • 12º – Belo Horizonte
  • 13º – Salvador
  • 14º – Fortaleza
  • 15º – Vitória
  • 16º – Teresina
  • 17º – Porto Alegre
  • 18º – João Pessoa
  • 19º – Natal
  • 20º – Recife
  • 21º – Manaus
  • 22º – Maceió
  • 23º – São Luís
  • 24º – Macapá
  • 25º – Belém
  • 26º – Rio Branco
  • 27º – Porto Velho

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