Quatro décadas após o desastre de Chernobyl, o operador Oleksiy Breus relembra o dia em que foi trabalhar sem saber que o reator 4 havia explodido. Em depoimentos à imprensa internacional, ele descreve a destruição da usina, o estado dos colegas expostos à radiação e os efeitos físicos imediatos que sentiu no próprio corpo. O acidente matou dezenas de pessoas diretamente e pode ter causado milhares de mortes ao longo dos anos, além de transformar a região em uma zona de exclusão permanente.

Foto: SHONE/GAMMA
Foto: SHONE/GAMMA

A vida de Oleksiy Breus se divide entre o antes e o depois de 26 de abril de 1986, data do maior desastre nuclear da história. Operador da usina de Chernobyl, na então União Soviética, ele trabalhava no complexo havia quatro anos e morava em Pripyat, cidade construída para abrigar funcionários da central nuclear, na atual Ucrânia.

Naquela madrugada, nada parecia fora do comum. “Eu estava dormindo profundamente, não ouvi, não vi nada. De manhã, como sempre, peguei o ônibus e fui trabalhar. Não sabia absolutamente nada sobre o desastre”, contou ao jornal Daily Mirror.

Foi apenas ao se aproximar da usina que Oleksiy percebeu que algo estava errado. Do ônibus, ele viu parte da estrutura destruída. “Os meus cabelos se arrepiaram quando vi aquilo. Eu não entendia por que nós estávamos sendo levados para lá”, relatou. Mesmo assim, os funcionários foram direcionados ao trabalho, já que ainda havia operações em andamento.

Oleksiy foi o último operador a permanecer na sala de controle após a falha no reator nº 4, que ocorreu durante um teste de segurança. A explosão liberou uma quantidade massiva de material radioativo na atmosfera, contaminando vastas áreas da Europa.

“Parecia uma vala comum”, disse ele em entrevista à Sky News. Ao chegar ao local, acreditou que todo o turno da noite havia morrido. As imagens dos colegas de trabalho o acompanham até hoje. Segundo ele, muitos apresentavam sinais evidentes de envenenamento por radiação: palidez extrema, pele avermelhada e mal-estar intenso.

O técnico Leonid Toptunov e o supervisor Oleksandr Akimov, citados por Oleksiy, morreram semanas depois em decorrência da Síndrome Aguda da Radiação (SAR). “Eles não estavam com uma aparência boa, para dizer o mínimo. Mais tarde, morreram no hospital, em Moscou”, relembrou.

O próprio Oleksiy também sofreu os efeitos da exposição. Ao final do turno, percebeu que sua pele estava avermelhada e com aparência de bronzeamento intenso, especialmente nas partes não cobertas pela roupa, como rosto, mãos e pescoço.

Oficialmente, 31 pessoas morreram diretamente em decorrência da explosão e da SAR nos meses seguintes. No entanto, a Organização Mundial da Saúde estima que até 4 mil mortes adicionais possam estar relacionadas ao câncer causado pela radiação ao longo dos anos, número que pode ser ainda maior.

Impacto profundo no regime soviético

O desastre teve impacto profundo no regime soviético. O diretor da usina, Viktor Bryukhanov, o engenheiro-chefe Nikolai Fomin e o engenheiro-chefe adjunto Anatoly Dyatlov foram condenados a 10 anos de trabalhos forçados por responsabilidade no acidente.

Desde então, Chernobyl se tornou uma área de exclusão. O reator 4 está coberto por um gigantesco domo de aço, inaugurado em 2019, considerado a maior estrutura móvel terrestre do mundo. Projetado para durar 100 anos, o escudo permite o desmonte seguro do antigo sarcófago construído às pressas após a explosão e impede vazamentos de radiação remanescente. Em meio à guerra na Ucrânia, a estrutura teria sofrido danos provocados por drones, o que reacendeu preocupações sobre a segurança do local.

Quarenta anos depois, os relatos de sobreviventes como Oleksiy Breus seguem como um lembrete do impacto humano, ambiental e político de uma catástrofe que marcou a história do mundo.

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