Além das mensagens, dados do celular da vítima apontam movimentações no aparelho após o disparo, levantando suspeitas de tentativa de apagar provas. Testemunhos e registros reforçam a hipótese de um relacionamento conturbado, marcado por controle e conflitos frequentes.
A investigação sobre a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, encontrada com um ferimento de arma de fogo na cabeça dentro do apartamento onde vivia, no Brás, região central de São Paulo, ganhou novos desdobramentos nesta sexta-feira (27).
Um dia antes do crime, a policial enviou uma mensagem ao marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, na qual fez críticas à relação, afirmando que ele teria confundido afeto com imposição de autoridade.
Geraldo foi preso preventivamente no dia 18 de março e passou a responder na Justiça por feminicídio e fraude processual. Inicialmente, ele alegou que a esposa teria tirado a própria vida após uma discussão, mas essa versão foi descartada após a análise pericial indicar indícios de homicídio.
Versão de suicídio é descartada pela perícia
De acordo com a Polícia Civil, dados extraídos do celular da vítima revelam que o aparelho foi acessado após o disparo e teve conteúdos apagados. Os registros mostram desbloqueios em horários posteriores ao momento em que o tiro teria ocorrido, levantando suspeitas sobre a manipulação do dispositivo.
Testemunhas relataram que um estampido foi ouvido por volta das 7h28. Já o acionamento da polícia ocorreu minutos depois, às 7h54, conforme apontam as investigações. A sequência de horários e as evidências técnicas reforçam a linha investigativa que aponta para feminicídio, enquanto o caso segue em andamento.
Mensagens recuperadas revelam conversa
Informações extraídas do celular da soldado Gisele Alves Santana revelam que ela e o marido trocaram mensagens na véspera de sua morte, incluindo conversas relacionadas ao fim do casamento. Já no aparelho do tenente-coronel Geraldo Neto, não foram encontrados registros desse diálogo, o que chamou a atenção dos investigadores.
Mesmo após terem sido apagadas, as mensagens foram recuperadas pela Polícia Civil e passaram a integrar o inquérito. Entre os conteúdos analisados, consta que a última comunicação enviada por Gisele ocorreu por volta das 23h, quando ela autorizava o marido a dar início ao processo de divórcio.
- Gisele às 22h47: Mas já que decidiu separar;
- Gisele às 22h48: Agora podemos tratar de como vou sair;
- Gisele às 22h59: Vc confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão;
- Gisele às 23h: Vejo que se arrependeu do casamento, eu tbm, e tem todo direito de pedir o divórcio não quero nada seu, como te disse eu me viro pra sair tenho minha dignidade;
- Gisele às 23h: Pode entrar com pedido essa semana.
Histórico de comportamento agressivo
Depoimentos de policiais militares colhidos pela Polícia Civil indicam que o tenente-coronel Geraldo Neto já apresentava comportamentos agressivos dentro do ambiente de trabalho. Segundo relatos, episódios envolvendo a soldado Gisele Alves Santana teriam sido comentados entre colegas e presenciados em dependências do quartel.
Uma das testemunhas, que atuava em setor administrativo do Comando Geral, afirmou ter sido informada de um desentendimento em um corredor, no qual o oficial teria segurado a vítima com força e a encostado contra a parede.
Já outra policial relatou que colegas comentaram sobre registros de câmeras de segurança que mostrariam uma situação em que o tenente-coronel teria pressionado o pescoço de Gisele, em um gesto interpretado como tentativa de sufocamento.
Há ainda indicações de que o comportamento do oficial já havia gerado medidas internas antes mesmo do casamento. Segundo uma das declarações, ele teria sido impedido de acessar o quartel após um episódio considerado mais intenso de discussão, presenciado por militares responsáveis pela segurança do local.
Relatos apontam comportamento controlador e ciúmes
De acordo com depoimentos reunidos pela investigação, o caso chegou ao conhecimento do comando da corporação, que teria chamado Gisele para conversar. Na ocasião, o tenente-coronel Geraldo Neto foi afastado temporariamente de suas funções no quartel, voltando a frequentar o local apenas após o casamento, segundo relatos de testemunhas.
Após esses episódios, colegas passaram a identificar um comportamento descrito como controlador e marcado por ciúmes por parte do oficial. Há relatos de que a policial demonstrava receio em relação às reações do marido, inclusive em situações cotidianas, como o uso do uniforme ou de itens de cuidado pessoal.
Testemunhas também afirmaram que a postura de Gisele mudava na presença do companheiro. Conhecida por ser comunicativa no ambiente profissional, ela se tornava mais reservada e demonstrava tensão quando ele estava por perto, algo que, segundo os depoimentos, era percebido por diversos colegas de trabalho.
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