A morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, durante um salto de rope jump em Limeira (SP), trouxe novamente atenção aos riscos dos esportes radicais. Pesquisador da psicologia da aventura, Eric Brymer explica por que essas atividades atraem cada vez mais pessoas e destaca o papel da preparação, do medo e da relação com o ambiente.
A morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, durante um salto de rope jump em Limeira (SP), colocou novamente em discussão os riscos envolvidos em esportes radicais. O caso trouxe questionamentos sobre protocolos, fiscalização e preparação, mas também abriu espaço para uma reflexão mais ampla: por que atividades que envolvem altura, velocidade e sensação de perigo continuam conquistando cada vez mais praticantes?
Nos últimos anos, esportes radicais deixaram de ocupar apenas um espaço restrito entre aventureiros profissionais e passaram a atrair um público mais amplo. Escalada, paraquedismo, rapel, mergulho, rafting, saltos de altura e outras modalidades ganharam força impulsionadas também pelas redes sociais, pelo turismo de aventura e pela busca por experiências consideradas únicas.

Maria Eduarda || Reprodução: Redes Sociais
Segundo Eric Brymer, pesquisador da psicologia da aventura e professor da Southern Cross University, na Austrália, a explicação para esse crescimento vai muito além da procura por adrenalina. Autor do livro Adventure Psychology: Going Knowingly Into the Unknown (“Psicologia da Aventura: Indo Conscientemente para o Desconhecido”, em tradução livre), ele pesquisa há anos a relação entre aventura, desempenho, natureza e bem-estar, além de entrevistar praticantes de modalidades como escalada, paraquedismo e outros esportes de alto risco.
Para Brymer, existe uma visão equivocada sobre quem pratica esportes extremos. Muitos dos praticantes não são pessoas que simplesmente buscam o risco ou ignoram o perigo. “Muitas das ideias que temos sobre praticantes de esportes extremos estão erradas. A noção tradicional de que são pessoas sem medo, que querem apenas correr riscos, não corresponde ao que encontramos nas pesquisas”, afirma o especialista.
De acordo com o pesquisador, muitos atletas desenvolvem uma relação profunda com a atividade escolhida. Em vez de uma busca pelo perigo, existe uma combinação de preparação, disciplina, concentração e desejo de superar limites pessoais. Ele explica que praticantes de modalidades extremas costumam dedicar anos ao desenvolvimento de habilidades antes de enfrentar situações de maior complexidade.
“O que encontramos é que eles são muito cuidadosos. Eles têm um conhecimento profundo do ambiente em que estão inseridos e da própria capacidade. Existe uma preparação intensa para lidar com aquilo”, explica Brymer.
Como o medo atua em atletas de esportes radicais?
Um dos pontos estudados pelo especialista é justamente o papel do medo. Diferentemente da ideia de que aventureiros não sentem medo, Brymer aponta que essa sensação pode ser uma ferramenta importante para quem pratica atividades de alto risco.
“O medo é muito importante porque indica que algo merece atenção. Ele faz com que a pessoa observe o ambiente, perceba seus limites e avalie melhor a situação”, afirma. Segundo ele, o objetivo não é eliminar o medo, mas aprender a interpretá-lo e agir diante dele.
Acesse o canal BNTV no Youtube
Além da questão física, a psicologia da aventura também aponta outros fatores que ajudam a explicar a popularidade dessas modalidades. Muitos praticantes relatam sensação de presença, conexão com a natureza e transformação pessoal após experiências intensas.
Brymer explica que essas atividades podem proporcionar uma percepção diferente sobre a própria vida. “As pessoas descrevem sentimentos de liberdade, concentração extrema e uma conexão maior com o ambiente. São experiências que podem mudar a forma como elas enxergam a si mesmas”, afirma.
O crescimento da procura também tem relação com a exposição digital. Vídeos de grandes manobras, saltos e desafios fazem com que mais pessoas tenham contato com esse universo. Ao mesmo tempo, especialistas alertam para um dos principais riscos desse fenômeno: a diferença entre assistir a uma experiência extrema e estar preparado para realizá-la.
Leia também:
Influencia das redes sociais
Segundo Brymer, a popularização pelas redes pode criar uma falsa impressão de facilidade. “Você pode assistir alguém fazendo algo e não perceber que aquela pessoa levou anos desenvolvendo as habilidades necessárias”, explica.
No caso do rope jump e de outras atividades que envolvem altura, a segurança depende de uma série de fatores: equipamentos adequados, manutenção, treinamento, análise do local e protocolos bem estabelecidos. A investigação sobre a morte de Maria Eduarda segue em andamento, mas cria um debate: como equilibrar a busca humana por novas experiências com a responsabilidade necessária diante do risco.
A procura por essas modalidades mostra que a vontade de explorar limites continua presente. Para Brymer, o desafio é garantir que essa busca por intensidade venha acompanhada de conhecimento, preparação e estruturas capazes de tornar a aventura uma experiência segura.