Os ataques e tentativas de bloqueio do tráfego marítimo pelo estreito de Hormuz podem levar ao cancelamento de contratos de exportação e gerar escassez de fertilizantes no Brasil, que depende em grande parte de importações para suprir sua demanda. Especialistas dizem que cerca de 41% da ureia importada em 2025 passou por essa rota antes de chegar ao país.
Agricultores brasileiros podem enfrentar impactos devido à intensificação do conflito no Irã e na região do Oriente Médio. Especialistas e dados de mercado indicam que a região é um destino estratégico para as exportações agrícolas do Brasil e também um importante fornecedor de fertilizantes, como a ureia.
O Oriente Médio está entre os principais produtores mundiais de fertilizantes, e o estreito de Hormuz representa uma rota marítima essencial para o comércio internacional. Cerca de 35% da ureia global, fertilizante nitrogenado mais utilizado no planeta, passa por essa via, segundo informações do grupo CRU.
Com a escalada das tensões entre os Estados Unidos e o Irã, envolvendo países vizinhos, há risco de cancelamentos de contratos de grãos e possível escassez de fertilizantes no Brasil. A dependência do país em relação às importações aumenta a vulnerabilidade frente a interrupções no tráfego marítimo pelo estreito de Hormuz.
Exportadores estudam rota alternativa
Exportadores brasileiros estão avaliando a possibilidade de descarregar cargas de grãos em Omã como forma de evitar problemas decorrentes do tráfego pelo estreito de Hormuz, segundo a consultoria Argus. “Ainda não está claro se essa alternativa é viável; caso contrário, os embarques poderiam ser cancelados”, afirmou a Argus à Reuters.
A consultoria também destacou que não há garantia de que todos os volumes descarregados em Omã conseguiriam chegar aos destinos finais por transporte rodoviário ou ferroviário. Segundo Arthur da Anunciação Neto, sócio-diretor da Alphamar Agência Marítima, cargas a granel, como milho, normalmente atravessam o estreito de Hormuz.
O canal marítimo também é responsável por cerca de 45% da produção mundial de enxofre, utilizado na fabricação de fertilizantes fosfatados, além de transportar volumes importantes de amônia, essencial para fertilizantes nitrogenados. Por isso, há grande preocupação com possíveis interrupções no tráfego pelo estreito.
Fertilizantes registram alta expressiva
Os preços dos fertilizantes já registraram alta significativa nas últimas semanas. A ureia granulada no Oriente Médio subiu aproximadamente US$ 130 (R$ 678,39), alcançando uma faixa de US$ 575 a US$ 650 (R$ 3.000,58 a R$ 3.391,96) por tonelada desde sexta-feira (27), enquanto os valores de exportação do Egito aumentaram cerca de US$ 125 (R$ 652,30), chegando a US$ 610 a US$ 625 (R$ 3.183,22 a R$ 3.261,50) por tonelada, segundo a consultoria Argus.
Na Europa, os contratos futuros de amônia também tiveram elevação expressiva, com uma carga de 1.000 toneladas para abril sendo negociada a US$ 725 (R$ 3.783,34) por tonelada — aumento de cerca de US$ 130 (R$ 678,39) em relação à última negociação, realizada em meados de fevereiro.
As ameaças à navegação em águas do Oriente Médio elevaram o custo do seguro marítimo, segundo Arthur da Anunciação Neto, sócio-diretor da Alphamar Agência Marítima. Dez navios estavam programados para seguir ao Irã com mais de 600 mil toneladas de soja e farelo de soja brasileiros, mas, dependendo das circunstâncias, essas cargas podem ser redirecionadas para outros destinos.
O Irã foi o principal comprador do milho brasileiro no ano passado, adquirindo cerca de 9 milhões de toneladas, aproximadamente 20% do total exportado. A maior parte do embarque de milho ocorre no segundo semestre do ano.
Oriente Médio é fornecedor estratégico
Os produtores de fertilizantes do Oriente Médio, especialmente o Irã, desempenham papel estratégico no abastecimento do setor agrícola brasileiro. Segundo dados da consultoria Agrinvest, o Brasil dependeu integralmente de importações para suprir sua demanda de ureia em 2025. Aproximadamente 41% desse volume, quase 3 milhões de toneladas, passou pelo estreito de Hormuz antes de chegar ao país.
Francisco Vieira, sócio-diretor da Agroconsult, destacou que o conflito no Oriente Médio pode reduzir a oferta de ureia e pressionar os preços no curto prazo. “Do Irã não deve vir nada… não se sabe se as fábricas estão sendo impactadas”, afirmou.
Dados oficiais do governo brasileiro indicam que as importações de ureia totalizaram 7,7 milhões de toneladas em 2025, sendo que o Irã respondeu por menos de 2,5% desse total. Entretanto, estimativas do setor privado apontam que entre 1,3 milhão e 1,4 milhão de toneladas provenientes do Irã abastecem anualmente o Brasil.
As remessas iranianas costumam ser direcionadas via Omã devido às sanções dos Estados Unidos, que dificultam transações financeiras internacionais com empresas iranianas. Tomás Pernías, analista de inteligência de mercado da StoneX, acrescentou que, dependendo do país de origem, seria possível avaliar rotas alternativas mais afastadas do estreito de Hormuz.
Conflito pode atrasar entrega de fertilizantes no Brasil
Um conflito prolongado no Oriente Médio pode comprometer a chegada de fertilizantes antes do início do ciclo de plantio da safra 2026/27 no Brasil, previsto para setembro. Thamires Cateli, fundadora da consultoria e corretora Hudie Consulting, afirmou que a guerra no Irã levou fornecedores a suspenderem temporariamente suas tabelas de preços de ureia nesta semana, causando interrupções no comércio internacional.
Embora alguns países possam substituir parcialmente os embarques de ureia do Irã para o Brasil, os impactos ainda são incertos. O Egito, responsável por cerca de 8% da produção global, depende de gás natural de Israel para manter a fabricação, o que também pode ser afetado pelo conflito, explicou Francioso.
A China, outro grande produtor de fertilizantes, tem diminuído suas exportações nos últimos anos para atender à demanda interna. Já a Rússia, que respondeu por cerca de 16% da oferta mundial de ureia em 2024, poderia suprir parte dessa lacuna.
No entanto, ataques recentes, como o ataque com drones a uma fábrica de fertilizantes na região de Smolensk, na Rússia, demonstram os riscos existentes nas cadeias alternativas de fornecimento de insumos como a ureia.
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