A hegemonia do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas penitenciárias de São Paulo hoje é um fato consolidado, mas a história do sistema prisional paulista esconde um capítulo sombrio e muito menos conhecido. Antes do domínio absoluto do chamado Partido do Crime, uma outra organização criminosa aterrorizou os pavilhões e disputou o controle das galerias usando o terror psicológico e o misticismo como armas de guerra: a Seita Satânica (SS).
Composta por adoradores do demônio, a facção é uma das mais antigas do país e utilizou o culto a Lúcifer para ditar as leis e subjugar adversários por décadas atrás das grades.
Embora os relatos de guardas mais experientes apontem que a prática esparsa do satanismo nos presídios paulistas tenha começado ao final dos anos 1970, o grupo só ganhou o status de facção na virada de 1993 para 1994. O cenário foi a Casa de Detenção de São Paulo, o temido Carandiru. O responsável por estruturar a organização foi o detento Idelfonso José de Souza, conhecido entre os liderados como “O Pai” ou “Pai Fundador”.
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Presídio do Carandiru, um dos mais temidos de todo o Brasil
Preso por homicídio após matar um amigo, Idelfonso era descrito como um homem frio, de poucas palavras, extremamente inteligente e com domínio de artes marciais. No ambiente carcerário, sua influência era tamanha que ele passou a ser reverenciado pelos demais integrantes da facção como o próprio “Satã”. Idelfonso utilizou a religião em comum dos detentos para criar uma rede de proteção e intimidação. Ele passou 17 anos em regime fechado, transitando por diversas unidades e cometendo uma série de faltas disciplinares, até progredir para o regime semiaberto em 2009 e ser finalmente solto em setembro de 2010. Desde então, seu paradeiro permanece desconhecido.

A entrada na Seita Satânica exigia dos novos integrantes um compromisso profundo e irreversível. Uma vez batizados, os membros eram submetidos a uma disciplina rígida e não podiam recusar a participação nos rituais ou na entrega de oferendas.
O estatuto da facção, que ditava o estilo de vida dos criminosos e o funcionamento da organização, foi obtido pelo agente penitenciário Diorgeres de Assis Victorio por meio de outro líder do grupo, o detento Benedito Honorato. Escrito em um bilhete e repassado em segredo, o documento continha três pontos centrais focados na chamada “verdade justiça infernal”:
- Que a verdade justiça infernal reine em nossos corações.
- Porque, na verdade, a justiça infernal é inviolável em toda a superfície do universo.
- Nas profundezas do fogo, nas profundezas do inferno, em toda a superfície da terra, nas profundezas do mar e no espaço infinito, sempre para a glória infernal.
No auge de sua atuação no Carandiru, os membros da Seita Satânica concentravam suas atividades e reuniões no quarto andar do Pavilhão 9, mantendo também uma forte presença no Pavilhão 8. As celas ocupadas pela facção eram facilmente identificadas pelas equipes de segurança e por outros presos.
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As paredes eram inteiramente pintadas de preto e cobertas por inscrições em línguas incompreensíveis, repetições do número 666, pentagramas (estrelas de cinco pontas), cruzes invertidas, tridentes e desenhos detalhados de Baphomet e do “olho de Lúcifer”. Os detentos vestiam-se diariamente com roupas pretas — uma prática que, anos mais tarde, foi proibida pela administração penitenciária.

Em depoimentos ao portal UOL, agentes que trabalharam no sistema prisional durante o período detalham o clima de pavor coletivo e o ambiente hostil que cercava o pavilhão da facção. O agente aposentado Ronaldo Mazotto Lima relembrou o forte desconforto psicológico enfrentado pelas equipes durante as vistorias de rotina.
“Enquanto conduzia revistas em suas celas, eu enfrentava o desconforto de mexer nos utensílios utilizados em rituais, como vasos de oferendas, velas e símbolos satânicos. Retirava objetos, encontrava odores repugnantes, números 666, roupas escuras, e até mesmo recipientes contendo sangue. Meus colegas tinham medo de mexer nessas coisas.”
O agente penitenciário Diorgeres de Assis Victorio, que conviveu diretamente com a Seita por mais de duas décadas, também relatou ao portal UOL a atmosfera macabra das celas, que exalavam um odor fétido constante de carne queimada e putrefação. O cheiro vinha, em grande parte, de vasilhames escondidos debaixo das camas contendo sangue velho e coagulado. Victorio descreveu um objeto específico que se tornou símbolo das práticas da facção:
“Uma das coisas que mais me impressionou foi uma garrafa PET furada que eles tinham e que fedia muito. Eles disseram que o cheiro forte agrada a Lúcifer. Na primeira vez que fui revistar a cela — e eu era um dos poucos que aceitava fazer isso — eu quase vomitei. […] Essa ‘garrafa PET furada’ era usada como um chuveiro, só que o banho não era de água, era de sangue humano, de ratos, ou de qualquer tipo de sangue que eles conseguissem.”
Os rituais de autoflagelação e os sacrifícios humanos eram frequentes na rotina da organização. Conforme os relatos de Victorio feitos pelo jornalista Guilherme Santana para o site The Intercept Brasil, os membros da facção costumavam queimar as próprias mãos como uma forma de oferenda divina. Quando questionados sobre as feridas que os levavam constantemente à enfermaria para a aplicação de curativos, os detentos afirmavam que “o cheiro da carne no fogo é o elixir de Lúcifer”.
Em casos de extrema violência contra inimigos de pavilhões rivais ou traidores, o agente Ronaldo Mazotto Lima relatou que os membros da Seita Satânica chegavam a arrancar o coração dos desafetos para que o órgão fosse consumido em rituais internos.
A guerra contra o PCC e a decapitação da liderança
Durante a década de 1990, a Seita Satânica conviveu de maneira relativamente harmônica com outros grupos menores que dividiam o poder nos presídios, como o Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade (CRBC) e o Comando Democrático da Liberdade (CDL). No entanto, o surgimento do Primeiro Comando da Capital (PCC), fundado em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté, mudou drasticamente o cenário do crime.
Inicialmente chamado nas galerias de “Partido do Crime” ou “Sindicato do Crime”, o PCC iniciou uma rápida e agressiva expansão territorial por todo o estado de São Paulo.

PCC, considerado uma das maiores facções do Brasil – reprodução/internet
A Seita Satânica e as demais facções antigas tentaram barrar o avanço do PCC, desencadeando um conflito sangrento que teve o Carandiru como seu principal campo de batalha. No início dos anos 2000, a guerra pelo controle total do sistema prisional atingiu o seu ápice. O lema imposto pelo comando do PCC era claro: os grupos rivais deveriam ser extintos ou aceitar a submissão total ao novo poder vigente.
A decapitação da Seita Satânica ocorreu em fevereiro de 2001, quando o PCC arquitetou a morte dos principais cabeças do grupo dentro do Carandiru no intervalo de apenas uma semana. A onda de assassinatos começou no dia 13 de fevereiro com a execução de Nilson César Camargo, o “Caveira”, um preso de alta periculosidade que tinha em seu histórico a participação em homicídios brutais contra outros detentos, sendo um deles morto com 42 golpes de estilete e outro com 52.
No dia seguinte, 14 de fevereiro, José Eduardo Assaf foi executado com múltiplas estocadas por Paulo Alfredo Nunes, o “Magrão”, que cumpria ordens da facção rival. Cinco dias depois, Benedito Honorato, o líder que havia compartilhado o estatuto da seita com o agente Victorio, foi morto por estrangulamento.

Marcola, líder do PCC desde a década de 90
Os inquéritos policiais instaurados para investigar a morte das três lideranças satânicas apontaram um elemento central em comum: todas as ordens de execução partiram da cúpula do PCC, mencionando diretamente o nome de Marcos Williams Herbas Camacho, o “Marcola”, que despontava como o principal chefe da organização. Diante do massacre de seus aliados, Idelfonso, o “Pai Fundador”, foi transferido com urgência para uma unidade em Franco da Rocha por razões de segurança. Encurralada, enfraquecida e sem suas principais lideranças, a Seita Satânica aceitou os termos de inferioridade impostos pelo PCC para não ser completamente dizimada.
A megarrebelião de 2001
Poucos dias após aniquilar a cúpula da Seita Satânica no Carandiru, o PCC demonstrou o tamanho de sua força para o resto do país. Em um movimento coordenado que contou com a transferência estratégica de seus membros para diferentes unidades, a facção deflagrou a histórica megarrebelião de fevereiro de 2001.
Ao todo, 27 unidades prisionais paulistas foram paralisadas simultaneamente, mobilizando cerca de 25 mil detentos e resultando em 16 mortes. O objetivo central era mandar uma mensagem clara para o governo e para a sociedade: o PCC existia e comandava as prisões.

Reprodução/internet
O agente penitenciário Diorgeres de Assis Victorio vivenciou o terror daquele domingo em primeira pessoa na unidade onde trabalhava, conforme relatado ao site The Intercept Brasil. A rebelião estourou em um dia de visita familiar, quebrando um código de ética histórico dos presos. Rendido por detentos armados enquanto cobria o turno de um colega, Victorio foi levado para a cela do castigo junto com outros funcionários.
“Quando entrei fui derrubado de barriga pra baixo ao lado dos outros agentes e funcionários que também haviam sido rendidos. Eu achei, na verdade tive certeza, que iriam nos matar ali mesmo. Pensei quem seria o primeiro a ser cortado, decapitado e ter as orelhas jogadas para os jacks [gíria para estupradores] comerem à força. Também passou pela minha cabeça os Satanistas negociando com o PCC alguma morte ou sangue para os rituais deles”, relembrou o agente.
Victorio e outro colega foram escolhidos como reféns para serem levados até a muralha do pátio, sob a mira de presos sob o efeito de coquetéis de remédios, álcool, maconha e cocaína. A dupla teve as mãos amarradas, os corpos envolvidos em colchões embebidos em álcool e um cilindro de gás industrial aberto diretamente contra os seus rostos.
Enquanto criminosos faziam ameaças com isqueiros e gritavam “Aqui é o PCC! Se o Choque entrar a gente mata todo mundo!”, os funcionários sofreram horas de tortura psicológica até serem devolvidos à cela com vida no dia seguinte.
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A violência extrema das disputas entre facções e a rotina degradante dos presídios deixaram sequelas profundas na saúde mental tanto da população carcerária quanto dos servidores públicos. De acordo com o relato feito por Diorgeres de Assis Victorio ao jornalista Guilherme Santana em 2018, o sistema funciona como uma verdadeira “fábrica de fazer loucos”.
Embora tenha perdido a guerra pela liderança do crime organizado e o controle das grandes rotas financeiras do narcotráfico para o PCC, a Seita Satânica não deixou de existir. Segundo as observações de Victorio e de outros analistas do sistema prisional, os remanescentes do grupo seguem espalhados por diferentes estabelecimentos penais, sobretudo em penitenciárias do interior de São Paulo.
Hoje, os membros atuam de forma muito mais reclusa, dedicando-se quase que exclusivamente às práticas de sua religião de matriz satânica, embora continuem figurando nos relatórios de segurança devido a faltas disciplinares ligadas aos seus rituais privados.
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