Além das críticas ao caráter das políticas, mulheres apontam dificuldades práticas, como altos custos de moradia, salários insuficientes e taxas elevadas de juros, que dificultam o planejamento familiar. Também são mencionados fatores sociais, como a baixa participação masculina na criação dos filhos e o alto índice de divórcios, que influenciam diretamente essa escolha.

Vladimir Putin (Reprodução/Redes Sociais)
Vladimir Putin (Reprodução/Redes Sociais)

Diante do agravamento da crise populacional e dos impactos da guerra na Ucrânia, o governo da Rússia implementou uma nova diretriz na área da saúde que já vem gerando debate e críticas.

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Russas que não pretendem ter filhos serão encaminhadas a psicólogos  (Foto: Unsplash)

A medida prevê que mulheres que afirmarem a profissionais de saúde não ter intenção de ter filhos poderão ser encaminhadas para acompanhamento psicológico, com o objetivo declarado de estimular uma visão mais favorável à maternidade.

A orientação foi aprovada pelo Ministério da Saúde russo em fevereiro e passou a ser repercutida pela imprensa local apenas neste mês. O protocolo faz parte de um conjunto de recomendações voltadas aos exames de saúde reprodutiva, que incluem perguntas sobre planos de gestação e número de filhos desejados.

O Ministério da Saúde russo agora recomenda que os médicos encaminhem mulheres que não desejam ter filhos “para uma consulta com um psicólogo, com o objetivo de fomentar uma atitude positiva em relação à maternidade”, de acordo com um documento visto pela AFP.

Segundo as normas, o encaminhamento para apoio psicológico não se estende aos homens que manifestarem a mesma posição, o que também tem levantado discussões sobre a aplicação desigual da medida. A iniciativa integra esforços do governo para enfrentar a queda nas taxas de natalidade no país.

Exames anuais para mulheres

De acordo com as novas orientações de saúde pública adotadas pela Rússia, profissionais médicos deverão convidar mulheres entre 18 e 49 anos para exames anuais voltados à avaliação da saúde reprodutiva. A iniciativa faz parte de um conjunto de medidas inseridas nas políticas do país para enfrentar a queda nas taxas de natalidade.

As recomendações também preveem a realização de avaliações semelhantes para homens da mesma faixa etária. No entanto, nesses casos, os exames teriam como foco exclusivo a saúde física, sem previsão de encaminhamento para acompanhamento psicológico.

A preocupação com o declínio populacional tem sido um tema recorrente nas políticas do governo russo, especialmente sob a liderança do presidente Vladimir Putin, que há mais de duas décadas afirma a necessidade de conter o encolhimento demográfico do país.

Rússia registra queda acentuada na população

A crise demográfica na Rússia tem se intensificado nos últimos anos e acendeu um alerta dentro do governo. Em 2024, o país registrou um saldo negativo de cerca de 600 mil pessoas, com o número de mortes superando significativamente o de nascimentos. A taxa de fecundidade caiu para 1,4 filho por mulher, bem abaixo do índice considerado necessário para manter a população estável.

Projeções indicam um cenário ainda mais preocupante, atualmente com cerca de 146 milhões de habitantes, a população russa pode encolher para menos de 90 milhões até o final do século, caso a tendência de queda persista.

Diante desse quadro, o Kremlin tem adotado medidas mais rígidas para tentar reverter a situação. Em outubro de 2024, o Parlamento aprovou uma lei que proíbe a chamada “propaganda anti-filhos”, limitando manifestações públicas que incentivem a decisão de não ter filhos. A legislação prevê penalidades que podem chegar a 400 mil rublos para quem descumprir as regras.

O governo classifica esse tipo de posicionamento como uma influência externa que colocaria em risco o futuro do país. No entanto, iniciativas anteriores, como restrições ao aborto, incentivo a valores familiares tradicionais e benefícios financeiros destinados a famílias com mais filhos, não tiveram impacto significativo na recuperação das taxas de natalidade.

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Mulheres criticam as medidas

Muitas relatam que não se sentem motivadas a ter filhos diante do atual cenário econômico e social do país, marcado por incertezas, inflação elevada e impactos da guerra. Para algumas, como profissionais jovens, a decisão de não ter filhos está ligada tanto à falta de estabilidade quanto à percepção de que as medidas do governo são ineficazes e até coercitivas.

Além das críticas ao caráter das políticas, mulheres apontam dificuldades práticas, como altos custos de moradia, salários insuficientes e taxas elevadas de juros, que dificultam o planejamento familiar. Também são mencionados fatores sociais, como a baixa participação masculina na criação dos filhos e o alto índice de divórcios, que influenciam diretamente essa escolha.

Há ainda preocupações com possíveis impactos psicológicos da medida, especialmente entre aquelas que não podem ter filhos por questões médicas, que temem ser estigmatizadas. Até mesmo mães demonstraram discordância com a iniciativa, questionando a ideia de pressionar mulheres a terem filhos sem considerar suas vontades e condições de vida.

Mulher grávida (Foto: Freepik)

Exames para homens

As novas diretrizes adotadas pela Rússia também preveem a realização de avaliações médicas para homens na mesma faixa etária, porém com foco restrito à saúde física, sem qualquer encaminhamento para acompanhamento psicológico.

Paralelamente, o país vem ampliando o controle sobre questões relacionadas à reprodução. Nos últimos anos, houve um endurecimento nas regras envolvendo o aborto, além de um discurso cada vez mais voltado à valorização de famílias numerosas.

Nesse contexto, lares com maior número de filhos passaram a receber incentivos e benefícios oferecidos pelo Estado, tanto no campo financeiro quanto em políticas sociais, como parte da estratégia para tentar reverter a queda populacional.

França também enfrenta recuo

A queda na natalidade não é exclusivo da Rússia e já atinge diversas nações, incluindo a França, que historicamente liderava os índices de nascimentos na Europa Ocidental. Atualmente, porém, o país também enfrenta retração, com a taxa de fecundidade em queda para cerca de 1,56 filho por mulher, o nível mais baixo desde o período pós-Segunda Guerra Mundial.

A redução faz parte de uma tendência observada ao longo dos últimos anos. Em 2010, o índice francês ainda ultrapassava a marca de dois filhos por mulher, mas desde então vem registrando declínio contínuo.

Diante desse cenário, o governo liderado pelo presidente Emmanuel Macron passou a adotar medidas para tentar reverter a situação. Em 2024, ele anunciou um conjunto de ações que chamou de “rearmamento demográfico”, proposta que gerou debate público no país.

Entre as iniciativas, está a ampliação de políticas de prevenção à infertilidade. Desde fevereiro de 2026, jovens de 29 anos passaram a receber comunicações oficiais com orientações sobre fertilidade, riscos associados e alternativas como o congelamento de óvulos, procedimento que pode ser custeado pelo sistema público de saúde para pessoas entre 29 e 37 anos.

Europa, América do Norte e Oceania têm participação reduzida

Projeções recentes baseadas da The Visual Capi­talist em dados da Organização das Nações Unidas apontam para uma forte concentração dos nascimentos em determinadas regiões do planeta nas próximas décadas.

Segundo estimativas divulgadas por análises internacionais, em 2026 apenas uma pequena parcela dos nascimentos globais ocorrerá em áreas como Europa, América do Norte e Oceania, que juntas representarão cerca de 8% do total.

Em contrapartida, a maior parte dos novos nascimentos estará concentrada na Ásia e na África, responsáveis por aproximadamente 85% do crescimento populacional mundial. A Ásia lidera esse cenário, com quase metade de todos os nascimentos globais, impulsionada pelo tamanho expressivo de sua população. Logo atrás, a África mantém índices elevados de crescimento, consolidando-se como uma das regiões com maior expansão demográfica.

Já a América Latina e o Caribe aparecem com participação mais modesta, representando uma fração menor do total de nascimentos. Mesmo com a redução das taxas de fecundidade em países asiáticos como China, Japão e Coreia do Sul, o continente segue com peso significativo no cenário global devido ao seu contingente populacional.

No caso africano, o crescimento permanece elevado, mesmo após anos de iniciativas internacionais voltadas à redução da natalidade, como campanhas de planejamento familiar e ampliação do acesso a métodos contraceptivos.

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